Auto a Judas [Rubem Penz]

Posted on 05/06/2020

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– Então, já leu o roteiro?

– Sim, sim, sim… Por alto, por alto… Estou a pensar onde me encaixo. Já vi que o papel de protagonista está ocupado.

– Desde a Criação. A ordem veio de cima, sabe como é. Filho é filho.

– Tem um personagem bacana, aqui: higiênico! Lavar as mãos e tal. Qual é o cachê?

– Pro bono, meu chapa. E reservado ao candidato oficial.

– Pena, havia gostado… E esse aqui: negar por três vezes? Precisa mesmo ir madrugada adentro?

– Sim, noite toda.

– Não, muito trabalho. E ajudar a carregar a cruz… Hein?

­– Fez teste de capacidade física no RH? É indispensável.

– Ainda não. Alguém já fez?

– Simão fez. E ele passou, digamos, com louvor.

– Ele é bom, ele é bom. Simão de Cirene: as más línguas dizem que está entrando na história meio obrigado… E esse papel aqui de ladrão? Duas vagas, né?

– Sim. Mas se você não gostou daquele de negar, esse é muuuito mais sacrificado.

­– Ah, depende. Paga bem?

– Todos os papéis são voluntários, meu rapaz. Você deveria saber.

– Sacanagem! (Quer dizer, perdoa a blasfêmia.) O Criador nos obriga a participar e não tem verba…

– Zero verbas. Mas, espera: uma colocação aqui tem patrocínio. Trinta moedas.

– Minha! Pode fechar a vaga! Trintinha? Feito. Chupa apostolada! Assino agora e tchau pra ti.

X – X – X

– Vem cá: ele leu o script até o fim antes de assinar?

– Pela animação, duvido, né?

– Graças a Deus.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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