Um mestre da crônica [Cyro de Mattos]

Posted on 04/06/2020

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De origem grega, a palavra crônica vem de chronos, que quer dizer tempo. Forma  textual de narrativa curta, possui uma inclinação para  os fatos da vida diária, contemporâneos. Escrita para o jornal ou revista, televisão ou rádio, o estofo literário retira-lhe a condição estrita de jornalismo, cuja linguagem é objetiva para informar o fato. Conciso e útil, o jornalismo pretende aproximar do evento os seres humanos com a linguagem precisa, onde quer que estejam, para que tomem conhecimento do que acontece no mundo, enquanto a crônica ameniza a notícia ou o evento levado ao leitor sobre a vida diária.

A crônica no seu arcabouço de escrita híbrida, entre o jornal e o literário, não apresenta limites muito definidos. Sujeita ao efêmero que passa  ante o eterno que fica, o espaço que melhor  achou para morar e se expandir foi  o jornal, lugar em que  demonstra  leveza na informação do fato e corresponde ao que os ingleses chamam de commentary, sketch, light essay, literary column, human interest story. Usa a oralidade na fala dos personagens e o coloquial na escrita, a linguagem é  simples, alguns querem que seja como poesia espontânea em forma de prosa.

No Brasil, quando se fala em cronistas de primeira grandeza, soam com aplausos os nomes de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Heitor Cony, Henrique Pongetti, Stanislaw Ponte Preta, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues e Luis Fernando  Verissimo. No elenco formado por esses cronistas de primeira qualidade poderia figurar o baiano (de Ilhéus) Fernando Leite Mendes?

Como todo bom autor, ele escreveu um sem-número de crônicas para todos os gostos com fina sensibilidade. Dariam, se publicadas, vários volumes. Ficaram esparsas, esquecidas, perdidas no baú do tempo. O único livro desse cronista admirável, Os olhos azuis de D. Alina e algumas crônicas (1985), hoje uma raridade bibliográfica, foi publicado postumamente, graças à iniciativa do sobrinho Gumercindo Leite Mendes. O volume reúne cinqüenta crônicas, algumas antológicas, como “Os gatose “Elogio do urubu, a primeira de humor e a segunda com sabor de prosa poética; “João da Verdura” e “Adeus, Tamiroff”, crônicas, como de resto,  além do cotidiano, de tão humanas, atingem o universal, em seus tons carregados de subjetividade comovente. Apresentam-se pontuadas de ternura na exposição do episódio.

Jornalista de talento excepcional, de Salvador seguiu Fernando Leite Mendes com a sua vocação para o Rio onde, nos anos em que residiu na metrópole, nunca esqueceu as raízes baianas, sintonizadas em  Ilhéus e Salvador. Em terras cariocas, no seu voo de homem inteligente, se impôs como editor, redator e cronista dos principais veículos da imprensa. Lúcido, esteve presente em algumas colunas importantes que assinou: “O homem da rua”, “A poesia do asfalto”, “Sextas-feiras estórias”. Foi editor político do jornal “Última Hora”, redator da “Revista da Semana e do “Consórcio Time-Life”, exímio editorialista do “Diário de Notícias” e do “Correio da Manhã”, redator-chefe do “Diário Carioca”. A notícia informada por ele estava em boas mãos.

Intensamente humano, autêntico lírico que gostava de expressar o lado encantador da vida, com uma capacidade de falar de modo simples e, ao mesmo tempo, sedutor e culto, de gesto solidário e terno, o tempo não quis que esse amanuense da palavra vivesse mais anos aqui entre os humanos. Foi-se embora aos 48 anos. Tivesse mais tempo para esbanjar seu talento verbal, certamente teria  posto numa festa demorada da vida mais riso, fraternidade, esperança e sonho, companhias necessárias, ontem como hoje. Haveria mais leitura desses momentos fotográficos que ele registrou  no teclado da  sua máquina portátil Remington, levada para ser usada onde estivesse, em Hong Kong ou Paris. Mais escuta sensível dos seres humanos haveria, graças a um senhor gordo, com alma de menino, um relógio de cordas suaves no peito, cujos ponteiros costumavam marcar como poesia os passos da existência. Mais divulgado, em seu brinquedo preferido, a crônica, ensejaria  minutos de delícia às novas gerações.

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Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras. 

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