Redes sociais [Marco Antonio]

Posted on 03/06/2020

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Tempo de quarentena, lembrei desta história.

Primeira metade dos anos noventa, trancada a minha matrícula no curso de Comunicação, parti para realizar um projeto: fazer o mochileiro pela Europa, hospedando-me em albergues da juventude, e visitar parentes na Itália.

Uma vez em Roma, cumpri o agradável protocolo, rever tios, primos. Depois, de carro, levaram-me até o litoral da Calábria, rever a cidadezinha mezzo incrustada na montanha, mezzo espalhada ao longo da praia, onde fica a casa em que meu pai cresceu. A região recebe visitantes durante todas as férias de verão, mas naquela época do ano costumava se apresentar quieta e sossegada. Fiquei um mês.

A maior parte do meu tempo por lá eu passei imerso nas leituras que trouxera, e em livros que comprei pela viagem. Em uma dessas tardes bucólicas, eu lia apaziguado, sobre um dos blocos que serviam de contenção às ondas. O céu e o mar muito azuis, encontrou-me um senhor, nos seus prováveis setenta anos. Chamou-me pelo apelido de meu pai. Expliquei quem eu era e ele convidou-me para almoçar em sua casa, no domingo.

No dia marcado, levei uma caixa de chocolates como presente. Ele e esposa me receberam. Eu contente porque comia bem, dieta mediterrânea, ouvia mais do que falava, a salvo de escorregar no italiano, junto à mesa de companhias tão inesperadas. A história da Segunda Grande Guerra que ouvi foi a seguinte: ele servira no exército italiano, no Egito, se não me engano. Era o cozinheiro da tropa, e tendo sido derrotado pelos Aliados, foi feito prisioneiro. Passou a cozinhar para quem o havia capturado. Um dia o levaram para uma área afastada, onde ordenaram-lhe cavar covas para os companheiros mortos nos combates. Nesse momento, pá nas mãos, suspeitou que cavaria a própria cova, que iriam matá-lo a sangue-frio. Não foi o que ocorreu, conseguiu voltar para a esposa, para os filhos, que não conheci, viviam sós naquela casa. Contou-me com marejar de olhos. Acho que bebemos mais de uma garrafa de vinho. Minha sensação é que nos despedimos meio bêbados.

Com a noite, liguei a tevê. Eu passava as noites assistindo à tevê. Não havia canais a cabo, internet ou celular. Nem redes sociais.

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Marco Antonio é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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