Às vezes [Cássio Zanatta]

Posted on 02/06/2020

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Às vezes, você é a coisa mais linda. Às vezes, não. Um dia são braços abertos, no outro, o impulso da catapulta. Faz a beleza se morder de inveja, para em seguida não inspirar nenhum assobio ao passar em frente à construção. O que nunca varia é meu espanto.

Seus dentes costumam trilhar um caminho de pedras brancas, que eu atravessei menino; em outras ocasiões, se atrapalham e amontoam, parecendo vagões espremidos de um trem que descarrilhou.

Ora diz coisas que impressionam os crentes, ora me faz descrer de tudo. Sempre a quatro passos da encruzilhada. Talvez ter escondido um retrato seu seja um consolo, talvez hoje eu o queime em fogo lento, desses azuis, quase frios, num ritual sem fé ou orgulho.

Tem horas que por favor. Tem dia que nem a pau. Quando pisa macio, posso sentir nas 12 unhas, mas, quando foge por meses, estanco feito mula vaidosa. Se dou o bote, vem o drible entre as pernas e a vaia das arquibancadas. E há um jogador mais jovem e mais seguro no aquecimento.

De estrela a pântano (e vice-versa) em quatro encontros. Comoção e sortilégio. Sol e chuva, casamento de viúva.

Gosto quando é salto no ar, não quando você fica pingando na cabeça. Desejo sua aparição, como espero sinceramente que você tenha se mudado para uma casinha em Jijoca. Torço a favor, contra, comemoro, me arrependo, me sinto o máximo e o mínimo, médio nunca. Um cego a despencar do alto da montanha-russa sem ter onde segurar.

Chega a tarde, é floco; a noite cai, alfinete. O sonho carregado de pontadas. Decolagem com fagulhas na asa. Nunca saber se a boca ri para mim ou de mim. Capaz de me fazer poeta ou turrão, sublime ou ridículo. Depende da roupa que você escolheu ser hoje.

Imutável, só essa indecisão. Às vezes me acho, outras, esqueço; às vezes me entendo, outras, o avesso. O eu perdido, senhor dos tropeços, a forte tensão na linha que segura a pipa. Sigo o caminho sem lanterna ou esperança de chegada, sem olhar para frente, procurando nos abismos, e como alimento respiro seu vácuo.

Já não espero, tampouco acredito, apenas escrevo. Na esperança de encantar alguém que não será você.

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Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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