O fenômeno literário e os outros [Raul Drewnick]

Posted on 31/05/2020

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Depois dos oitenta anos, continuar escrevendo é um fenômeno muito mais médico que literário.

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Já de longa data sou para mim persona non grata.

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Um haicai não se busca. Um haicai se  aceita, como uma graça.

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Nos sonhos dos parnasianos, seus sonetos eram lírios que cantavam como rouxinóis.

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No tempo de lady Godiva, ah que calamidade!, não havia “Playboy”.

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No dia de Finados, somos todos precocemente homenageados.

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Ela disse que só se fosse daquele jeito, e ele lambe a blusa e mordisca a ponta pulsante do sutiã.

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O que mais me incomoda não é não ter sido o escritor que sempre quis ser. É ter levado tanto tempo para não ser.

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Quando ia pegar cartas na casa de Neruda, o carteiro arfava: era o peso dos gongorismos.

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O vento certeiro espeta a borboleta no espinheiro.

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Na adolescência, ele se gastava assim: começava com Ava e acabava com Marilyn.

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O haicai é uma forma aprimorada de silêncio.

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Dois de meus autopresumidos talentos dependem de comprovação: escrever algo que preste e morrer romanticamente.

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Não se sabe exatamente a década em que os autores de sonetos passaram a ser considerados responsáveis por eles.

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No álbum de uma aniversariante: “Faça de conta que desenhei aqui uma flor. E finja que ela é digna de você, apesar de feita por esta mão desajeitada que até hoje não aprendeu a lidar com as palavras.”

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O que se pode dizer de Deus como artista é que tinha certa mania de grandeza.

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Apesar do que eles mesmos apregoam, não há na Bíblia nenhuma passagem que atribua aos poetas a propriedade das estrelas.

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No quarto ou quinto de seus ímpetos criadores, desgostoso com certos detalhes, Deus pensou se não seria conveniente apresentar-se sob um pseudônimo.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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