Numa noite qualquer [Madô Martins]

Posted on 29/05/2020

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Acredito em destino, coincidência, intuição – tudo que a razão nega e renega. Talvez por isso, perceba com facilidade e sempre agradeça os afagos que o universo me faz. É quando penso nas parcas, tecendo nossa sina, do nascimento à morte. A que se encarrega de meus fios tem o humor próprio das divindades: é irônica às vezes, generosa em outras, o que torna a existência um suceder de altos e baixos, em permanente teste de amor à vida.

Ando tristíssima com a pandemia, como a maioria dos mortais. Ela agora anda por perto, levando para o além amigos queridos, gente boa que não merecia partir assim, sem aviso prévio. Vêm acontecendo suicídios, também, e mortes por causas naturais ou cirurgias mal sucedidas, o que só torna pior a sensação de orfandade que nos assola.

Na contagem do tempo de isolamento, grande parte se acumula no placar dos dias tristonhos. Reagimos, apreciando o azul do céu de maio, a agitação dos pássaros, o florescer das árvores, lendo, escrevendo, cantando, retocando a decoração da casa, fazendo experiências na cozinha, praticando afeto à distância… Mas está difícil passar 24 horas sem más notícias.

Estava nesse estado de ânimo, quando a parca refez alguns pontos e desmanchou nós. Jantava, quando o telefone tocou, trazendo uma voz que eu não ouvia há mais de 20 anos. Que falava desde outro continente, trazendo de volta uma história interrompida às pressas no longínquo 96. Ainda éramos os mesmos, apesar de mais velhos, aposentados, com os filhos crescidos. A conversa ainda fluía com a mesma facilidade, embora faltasse assunto: tateávamos no desconhecido, tentando atualizar décadas de silêncio.

Trocamos endereços, telefones e promessas de não mais nos afastarmos por tanto tempo. Não retomei a janta, porque a fome se fora. Assim como a melancolia. Enfim, conseguia sorrir à toa, enquanto a memória brincava de ciranda com a imaginação.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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