Pedagocídio [Tiago Maria]

Posted on 28/05/2020

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Segunda-feira, 9h15.

A mãe do Enzo desperta antes dele para preparar um leite morno com chocolate e torradas de bisnaguinhas com requeijão. Revê as atividades que a escola enviou. Organiza o espaço para a aula, enquadra a webcam, testa o microfone e forra a cadeira gamer com uma colcha. “O couro é muito gelado”. Hoje ela vai ajudar nas lições só até as 9h30. Depois quer assistir a live da Patrícia Abravanel, tem pés e mãos agendados. Ainda quer passar no shopping e pegar uns temakis para o almoço. “O Enzo adora, pede sempre”. Enzo ainda dorme pesado. Ficou até bem tarde jogando Fortnite. Largou o tablet sem bateria em qualquer canto e partiu para o celular embaixo das cobertas. Dormiu de luz acesa e ar condicionado no quente. Chove e faz frio, na rua, na zona blue de Porto Alegre.

Na mesma segunda-feira, 6h30.

A mãe do Willian acorda antes de todos na casa dos fundos e vai, de sombrinha e chinelos de dedo, pra fila da merenda que a escola está entregando aos pais. Pega a cópia meio apagada da folha de exercícios, dobra e põe no bolso. Deixa o lanche em cima da pia, esvazia o balde que apara as goteiras e embola um pano na fresta da porta. “O couro vai comer”. Hoje tem faxina nos três turnos. Ainda quer passar na xepa da feira e pegar algumas batatas pra sopa. “O Willian adora, quando tem”. Willian não pregou o olho. Ficou até bem tarde escutando o vento balançar as telhas. Brinca de celular com o controle da TV. Está sozinho em casa. Come o lanche e liga a televisão. A mãe levou a folha de exercícios no bolso. Se ela não chegar muito cansada, depois da sopa ele faz os temas. A chuva alaga tudo na zona morte de Porto Alegre.

O que nos diria Paulo Freire, crítico da “educação bancária”, vendo-a substituída por uma educação de caixa-eletrônico? Desconsideremos os estudos de Piaget e Vygotsky no que tratam da maturação biológica e do desenvolvimento cognitivo por meio da interação social? Esqueçamos de vez Maria Montessori e seu método de ensino com ênfase na autonomia e liberdade, em ambiente apoiador e preparado para a socialização?

Em algumas aulas remotas, alunos são convidados a desligarem os seus microfones enquanto a professora ou o professor estão depositando a matéria que cairá na prova. Agora dá pra desligar o som do estudante. Sonho do professor tradicional autoritário. Agora só ele fala. Não tem conversa paralela, nem risadinha da turma do fundão. Ao final da aula, cada um desliga a sua tela e pronto.

Se a crise na educação por aqui sempre se pareceu mais com um projeto, onde se sucateiam estruturas e matam professores à míngua, entramos agora na sua fase mais cruel e nefasta. O abismo que se escancara entre as realidades dos nossos estudantes nada mais é do que um verdadeiro pedagocídio.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras

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