Velha rotina nova [Daniel Russell Ribas]

Posted on 25/05/2020

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Enquanto escrevo estas linhas, li que uma mulher foi baleada numa operação policial em CDD. Na semana passada, dois meninos foram mortos nas mesmas circunstâncias. A rotina pode ter uma maneira perversa de demonstrar que permanece. Independentemente de pandemia, quarentena, um governo vergonhoso e de eu não tomar banho no dia anterior, a “normalidade” ressurge aos poucos. A OMS e qualquer objeto com o mínimo de sensatez bradam, mas e daí? Pessoas são mortas e vamos à praia, essas coisas acontecem o tempo todo. Tem vezes que não entendo o mundo. E nem tomei café ainda.

A adaptação da vizinhança foi curiosa. Moro num apartamento que dá de fundos para uma escola. Por conta disso, tenho vista para os prédios que a cercam. Estabeleceu-se um acordo implícito e pontual entre os moradores. Todo dia, às 18h, toca “Ave Maria”, seguida de aplausos. Às 20h30, o panelaço, em variados volumes, toma o palco. Durante as primeiras semanas, o vizinho apoiador do governo contribuía aos berros de “mito” e o hino nacional, num som para invejar baile funk. Após a saída do ministro “que morou tudo, mas escolheu não morar”, calou-se. Entretanto, como num filme de terror dos anos 80, o vilão nunca está morto, só à espreita. A criatura ressurgiu após a divulgação da reunião de condomínio ministerial, mugindo por um Brasil acima de todos, especialmente dos brasileiros… digresso. São as voltas que a terra plana dá.

Acesso a rede social e me acostumei com os óbitos. A doença leva celebridades, anônimos, lamentamos e la barca afunda. Há algumas semanas, foi a vez da poeta Olga Savary. Muito reconhecida no passado, recupera de forma gradual este status após o falecimento. O que se destacou para mim foi a situação em que ela se encontrava. No texto “Olga Savary: poeta, não poetisa”, publicado na página da revista Cult, a autora Beatriz Azevedo relata como foi sua conversa com Olga pouco antes de sua morte. É um testemunho triste, em que o abandono e a falta de recursos de uma senhora idosa são evidentes. Não posso afirmar os motivos que levaram a esta situação, mas conheço bem o que pode levar a isso. Cuidei de minha mãe por anos. Neste período, tive contato com diversos idosos e suas histórias. A verdade inconveniente sobre a população idosa é que ela é descartável. Frequentemente, são largados em casas que são amontoados de corpos, mal-tratados e ignorados. Os filhos se afastam. Há também idosos que “não querem dar trabalho” e os filhos seguem suas vidas, sem saber. Meu pai foi um desses, até que descobri a realidade que o cercava, e tomei uma atitude. Muitos, muitos escolhem outra alternativa e deixam seus parentes para apodrecer até o fim. Isto é usual. Sequer é necessário o endosso governamental.

As pessoas seguem grosseiras na rua, e um dos meninos mortos na semana passada tem um nome: João Pedro. Muitos tiverem antes, outros terão. A pandemia irá embora em algum momento, e nossos velhos ficarão mortos em vida. Lamentamos e berramos pela janela para sentirmos bem com nós mesmos. Vários desses não deixarão de frequentar a academia de ginástica ou outro lugar que apoia algo a que você teoricamente se opõe. Nossa hipocrisia está acima de todos, porque nossa impotência está acima de tudo. Arrotamos a banalidade da existência e olhamos para ao redor, como se tivesse sido outro. Uma mulher foi baleada em uma operação policial hoje, uma senhora passa fome e um asno relincha em autossatisfação aos aplausos de quem gosta ver maluco dançar.

Lembro dos vasos japoneses, cujos cacos são colados numa mistura de cal e ouro. É necessário quebrar o molde pra construir um objeto novo. E belo. Sabe aquele papo de que a rotina mata qualquer um? Taí a verdade mais inconveniente que existe. Porque é a verdade que ressoa todo dia e sempre nos recusamos a ouvi-la. Falem mal da rotina, sim.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras e excepcionalmente nesta terça-feira. 

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