O que precisa ter / Partes 1 e 2 [Rubem Penz]

Posted on 22/05/2020

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Mais de uma vez estive em rodas de bar nas quais os amigos elencaram atributos indispensáveis para cultivarem interesse por uma mulher. Também cobraram dos outros a mesma listagem – depois da terceira cerveja ninguém pode se dar ao luxo de considerar o tema sensível, nem mesmo quando a turma é mista. Aliás, tanto melhor: pontos altos dos homens servidos à mesa igualmente. O mais ilustrativo é o quanto tudo passa longe dos esperados peito-bunda-pernas.

É quando descobrimos o valor atribuído às longas melenas, aos olhos, mãos, pés, joelhos. Sim, joelhos. Há os que são enlouquecidos por mulheres baixas, enquanto outros dariam a alma por uma mulher mais alta. O nariz, que já fez a fortuna de tantos cirurgiões plásticos, não parece ser impeditivo para nada – ao contrário. Para ficar nas proximidades, lábios sempre em alta, assim como ombros.

Ao migrar aos predicados menos (a)palpáveis, a inteligência – que eu julgo topo de lista – perde para o humor. Compreendo, até: um quê de melancolia acompanha o excesso de consciência das coisas, sem falar na fragilidade de quem possua baixa autoestima diante de uma mente brilhante. Disposição cai bem, mais até do que disponibilidade (pense um pouquinho e veja as diferenças). Magnetismo tanto atrai quanto repele.

Nessas, e eu? Deixando as piadas que sempre conto de lado, na posição de apreciador devoto, reparo em quase tudo acima referido. Porém, um atributo jamais deve ser desprezado em uma mulher: a voz. Uma voz marcante, melodiosa e aveludada estimula a imaginação. Embala o sono, desperta outros sentidos, arrepia. Se há modulações, então! As fêmeas que têm boa voz e não aproveitam este patrimônio estão surdas ao espelho. Que estômago, que nada: o caminho do meu coração principia nos ouvidos…

Parte dois:

Certa feita, quando eu era um adulto jovem, escutei de uma mulher madura um relato tragicômico. Disse ela que, em sua juventude, para ela, um homem deveria ser rico, alto, cabeludo e magro. Prosseguiu: com o passar dos anos, alguns quilos a mais perderam a importância. Depois, os calvos mereceram seu olhar, bem como os homens de estatura média. A riqueza cedeu espaço para a autossuficiência (ou seja, o limite era não sustentá-lo). Pareceu-me tudo muito justo. Ao final, depois da pausa para um longo e reflexivo gole de vinho, arrematou:

– Hoje, basta que tenha os dentes…

PS: naquela altura, o cigarro já havia corrompido suas cordas vocais.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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