N95 [Tiago Maria]

Posted on 14/05/2020

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Recomendadas, num primeiro momento. Itens de segurança, logo em seguida. Questão de sobrevivência, mais adiante. Símbolo do respeito ao próximo. Escudo empático. Imprescindíveis aos profissionais da área da saúde. Compulsivas em espaços públicos por força da lei, pois, se dependêssemos do bom senso coletivo estávamos fu…lminados.

Você que acredita enfrentar dificuldades com o uso das máscaras de proteção, já imaginou quem têm mau hálito?

Você aí com esses lindos olhos, sobrancelhas expressivas e bem alinhadas, você com aquele olhar do Paulo Ricardo: essa é a sua chance de brilhar! Nós, os feinhos, porém, estamos agora em equivalência no anonimato. Com uma vantagem. Somos, via de regra, bem mais simpáticos.

Penso nos hospitais, a equipe médica, enfermeiros e enfermeiras, o pessoal da limpeza, da segurança, do administrativo, da cozinha… Casos de doutores adaptando sacos de lixo na falta dos EPIs. Rostos anônimos, heróis mascarados. E quanto mais incômoda, quanto maior é o desconforto, quanto mais difícil de respirar, maior é a vontade de ajudar o outro, mais dedicados e competentes se mostram; mais e melhor trabalham. Comovente. Inesquecível. Vocês merecem entrar para História, pela porta da frente, carregados em nossos nos ombros.

A criatividade e o empreendedorismo também viralizaram por aqui. Tem mais gente vendendo máscara do que farmácias nos cruzamentos. E olha que existe uma antiga lenda Celta que diz: se olhares fixamente para uma esquina qualquer, surgirá uma Raia Drogasil. “Vende-se máscara de proteção” é o novo “Conserta-se gaita”.

Mas tem que explicar direitinho, sabe, a Língua Portuguesa permite interpretações diversas, sentei esses dias ao lado de uma senhora no ônibus que usava uma máscara veneziana, cheia de plumas e paetês. O outro que fez um buraco pra conseguir fumar. E fica aqui um apelo para o pessoal da confecção não economizar nos elásticos. Queremos as nossas orelhas no pós-pandemia.

É provável que ainda leve algum tempo para cair nossas máscaras (sem trocadilhos). Os mais extravagantes que escolham estampas personalizadas. Os discretos, cores sóbrias, tecidos lisos. Quem é mais descontraído que ponha uma imagem, que, no caso, vale por mil gotículas (com trocadilho). Eu já vi máscara com bolso (oi?). Bordada. Crivada de cristal Swaróvski. Sacola plástica presa com atilho. Uma com focinho de porco. Outra com a boca do Coringa. Com o distintivo do Colorado. E vi também, negando os fatos, os corpos e a ciência, protestos contra o isolamento social. Alguns usavam a máscara da morte, com foice e tudo. Uns, de pato. Outros, de gado.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras

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