Dias de hoje [Drica Muscat]

Posted on 13/05/2020

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Nove da manhã. Abro os olhos e a cabeça dói. Bato no celular pra essa música insuportável e forte parar: hoje é sábado, vou dormir mais um pouquinho. Fecho os olhos, a dor de cabeça passa, decido levantar. Vou ao banheiro, faço xixi, lavo as mãos e o rosto, me peso, não fico nada feliz, mas vou preparar o café da manhã. Olho para baixo enquanto ando, e vejo uma barriga de grávida de gêmeos, isso explica os 20 kg a mais. Estou no Brasil mas chove, chove neve, chove algo que machuca, e na porta do hospital barraram o Bolsonaro, dizendo que é só uma gripezinha, que ele deve ir pra casa, que uma hora os sintomas passam sozinhos, ainda mais para atletas de alto nível como ele. Eu rio e choro, é muito dolorido, é um riso que rega uma pedra dentro do meu peito, que só cresce, cresce, eu nunca fui assim. Ainda quero fazer xixi, mas já não tinha ido ao banheiro? Deve ser culpa dos gêmeos, mas agora a minha barriga está vazia, não tem mais criança, estou em Paris, me viro na cama e já me preparo para a próxima tortura: nove e meia da manhã, toca o segundo alarme, e eu bato de novo no celular. É sábado, vou dormir mais um pouquinho. Onze e trinta e dois. Arregalo os olhos com o coração disparado, que horas são, perdi metade do dia, isso nunca poderia ter acontecido. Arrasto a culpa que me puxa para o lado oposto, e começo o dia sem saber a diferença entre uma cafeteira e um vaso sanitário. Fico muito confusa por alguns bons minutos, mas consigo me recompor e fazer o meu café. Arnaud me diz que eu dormi bem, eu digo que até demais, ele diz que isso é bom, eu tenho vontade de chorar. Recebo um vídeo da minha sobrinha, mostro para ele, sorrimos, damos risada, e me vejo afundada num mar de amor. Sentados no sofá, encosto minha cabeça no seu ombro, e falamos de armários por muitos minutos. Penso na faxina que eu precisaria ter feito na casa enquanto dormia, não dá pra comprar nenhum armário, a gente não consegue nem limpar os que a gente tem. Não é verdade. É, não é, mesmo. Melhoro, porque percebo que estou exagerando. Vou lavar a louça e me dá vontade de lavar o chão e a parede, esfregar tudo, jogar álcool em tudo, até o momento em que não terá mais álcool em casa e nem casa, porque eu vou diluí-la em álcool. Respiro, porque sei de onde isso vem e pra onde isso vai, e decido ir sentar no meu cantinho pra meditar. Demoro uns três ou quatro minutos para me acalmar, e prestar atenção na respiração. A mente desenha o passado e o futuro na mesma folha, tudo se confunde, o sangue se agita, a coluna dói, mas eu persisto. Desta vez, os minutos passam mais rápido. O ideal seria eu escrever o trabalho para o seminário e algumas páginas da tese hoje, limpar ao menos os armários, e iniciar a leitura de um dos livros da lista, mas estou jogada no chão olhando o Facebook de pessoas com quem eu desfiz amizade por motivos ideológicos, para ver quais argumentos elas ainda tentam encontrar pra defender esse circo de horrores que está o Brasil. Acho tudo isso muito tóxico, me vejo muito inadequada, sinto a pedra no meu peito, e lacrimejo, com o celular na mão. Arnaud me diz que fez o meu almoço preferido, eu limpo as lágrimas e salivo até pelos pés. Como é bom comer o que eu gosto. Terminamos de almoçar, lavamos a louça juntos, e eu deveria fazer meu esporte hoje, eu não esqueci, mas agora já são quase três da tarde, e eu ainda não escrevi nada pra universidade. Pego o computador e escrevo. Vou digitando tudo o que consigo, começo devagarzinho, depois vou mais rápido, e me sinto bem, estou produtiva, meu cérebro está fazendo conexões pertinentes, mas depois de duas horas canso, e olho para a minha barriga, pensando que quero ser mãe. Falo para o Arnaud, como quem não quer nada, e ele amorosamente me lembra que ontem mesmo eu disse que não queria ser mãe agora de jeito nenhum, por infinitos motivos. É verdade. Me dá vontade de chorar. Meu gato pula entre nós dois, e ronrona tão alto, que nos faz rir. Eu esqueço que estava quase chorando, e vou me vestir pra fazer meu esporte. Começo a me exercitar, sinto a dor de cabeça de novo, cogito Covid, menstruação, stress ou verme (meu gato teve verme e fiquei meio assustada), e fazer isso nunca foi tão dolorido. Mas eu preciso ser produtiva, eu preciso mexer meu corpo, eu preciso limpar a casa, e eu preciso existir aos olhos dos outros, então continuo. Termino a série de exercícios e me jogo no tapete de yoga, pego o celular e dou mais uma olhada no Facebook (amém, Senhor, que eu tive a brilhante ideia de sair de todas as outras redes sociais, imagina o tempo que eu não ia gastar checando todas elas, todos os dias?). Vejo o post de uma moça que eu fico na dúvida se admiro muito ou sinto muita inveja por conseguir fazer tudo o que eu queria ter feito, e me culpo. Quando eu vou me tornar alguém melhor, meu Deus? Desligo o celular, sento no meu tapete, satisfeita de ter finalizado a série de exercícios, mas não o suficiente pra não achar que eu deveria ter feito mais, abraço minhas pernas e coloco a cabeça nos joelhos. Eu reclamo de boca cheia, tem tanta gente passando necessidade, perdendo entes queridos, trabalhando dia e noite pra salvar vidas, o que eu estou fazendo, no que eu estou pensando, quem sou eu, o que está acontecendo? Olho para cima e Arnaud, meu companheiro, está estendendo a mão para me ajudar a ficar de pé. Não sei exatamente para fazer o quê, mas o que quer que seja, eu acho, honestamente, que nesses dias de hoje é só disso que a gente precisa.

De uma mão.

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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