Namastê [Drica Muscat]

Posted on 29/04/2020

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Sinta o ar entrando mais frio pelas narinas, perceba o caminho que ele faz descendo lentamente pela garganta até chegar aos pulmões.

Será que a minha coluna tá reta-reta, ou tá reta não-muito… ai, gente, isso dói, deixa reta não-muito, tá bom assim.

Imagine uma linha que vai do topo da cabeça até os ísquios. Alongue a coluna vertebral conforme a linha se estica, e sinta-se grande, cresça o máximo possível, e continue observando o caminho que o ar faz dentro do seu corpo…

Ísquio é bunda?

Deixe tudo o que aconteceu no passado e as preocupações futuras de lado, e esteja presente, seja o agora…

Certo. Estou aqui.

Agora, na expiração, a temperatura do ar é mais quente…

Gente, num é que é? E o que será que deu aquela ligação que a Lou recebeu? Falando nela, preciso ver o negócio da dermatologista, onde, ar nas canelas?

…subindo até os joelhos, coxas, relaxe completamente…

E o Brasil? Será que o povo já está finalmente se arrependendo? É burrice, maldade ou muito egoísmo? Estamos no umbigo? Eu nunca soube como

…relaxe o peito, os pulmões…

Graças a Deus o dia tá acabando, ops,

…ombros, desça para os braços, antebraços…

Será que eu vou ficar na França pra sempre? Eu não deveria ter tomado o segundo café, mas agora nem isso pode, porra? Ai, sinto muito, não disse porra, senhora, estamos onde? Nas mãos. Perfeitamente, estou relaxando as mãos, o ar está quente nas mãos, tá tudo certinho, obrigada, eu me perdoo, eu te perdoo, eu nos abraço, tem aquela frase que tem que dizer pras coisas funcionarem, num tem? Esqueci a frase. As palavras “couro cabeludo” juntas me dá uma adormecidinha boa no cérebro, é tão gostosinho, será que é ok sentir o cérebro dar uma adormecidinha? Gente, esse negócio do terceiro olho, olha, me lembra sabe quem? Aquela menina, a cantora lá, nossa, minha memória tá horrível, é o consumo de queijo, será?… Daí se eu ler umas 10 páginas do livro por dia, eu consigo terminar até o dia 20, escrever o trabalho e entregar na data, a minha agendinha rosa nunca mais vi, nem minha meia rosa, é típico do meu gato, deve ter sido ele, mas se… a língua? Como relaxa a língua, moça? Acho que to mais com cara de vômito do que relaxando a língua, de toda a forma, amanhã eu preciso acordar às 8h em ponto pra dar certo todo o planejamento, e só de pensar nisso, olha, o coração já, opaaa, acordou, que loucura este período estranho, ontem sonhei que tirava um colar de pedras coloridas da minha orelha, e parece que tem explicação científica para sonhos estranhos durante a quarentena, foi o que ouvi dizer. Tem dias que eu queria me tatuar inteira, tenho inúmeras ideias, mas tem gente que não ia gostar nada disso, a começar pela minha mãe, mas minha pele é minha, mas a mãe também é, e agora? Será que todo mundo sente esse complexo de inferioridade, ou sou só eu? Às vezes eu tenho saudades, às vezes raiva, às vezes inveja, às vezes horror, e às vezes eu amo. Que coisa maluca o ser humano, né, só com muita meditação mesmo, eu hein, credo, namastê pra você também, senhora.

Meditar é tudo.

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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