O pesadelo [Alexandre Brandão]

Posted on 26/04/2020

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(Imagem: Átila Roque)

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Para Manu e Tiê
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Quem não acha bom receber de um amigo um telefonema para dizer que você fez parte do seu sonho? E se não foi sonho, mas pesadelo? Pois é, foi o que me ocorreu no domingo passado, aniversário de mês de meu confinamento e mais um dia de desatino daquele lá, taokey?

Não vou contar todo o pesadelo, não me pertence, é de amigo, não de um qualquer, mas um daqueles que, em momentos egoísticos, digo: veio ao mundo só para ser meu amigo. E isso tanto é verdade — me perdoe sua família, aqui relegada à coadjuvante — que, certa vez, quando ele havia voltado a viver com a mãe, fui visitá-lo, e dona Guida serviu café num jogo de xícaras que o próprio filho não sabia da existência. As mães, chovo no molhado, reconhecem os irmãos de seus filhos à distância, em particular os que não nasceram de seu ventre. Não posso revelar o pesadelo do camarada, espero ter deixado clara a razão.

Posso dizer sim que o que foi um pesadelo para ele para mim soou como uma história estranha, engraçada até. Mas ele, opa, ele sentiu tudo aquilo no corpo. Meu amigo tomara vinho durante o almoço e, sozinho em casa, cochilara. Acordou suado, um pouco ofegante. Ligou para a filha, precisava falar. Ela disse, ligue para o Xandão, conte-lhe tudo.

Alguns grupos de pesquisa têm recolhido sonhos ocorridos durante a treva pela qual passamos. O do meu amigo valeria fazer parte do estudo, pois envolve o ambiente de trabalho (onde nos conhecemos há mais de trinta anos), troca de socos, transformação de um prédio no pé do morro da Mangueira em uma caravela e uma figura misteriosa, o vilão, de nome Malaquias. Busco por alguma referência a esse nome. Na minha infância, quando alguém tentava enganar o outro era chamado de Malaquias ou malaca. Não sei se teria alguma ligação com um dos profetas menores, Malaquias, é claro, que em quatro breves capítulos do Novo Testamento mostrou toda a ira de Deus com os homens e anunciou a vinda do Messias. A profecia precedeu em quatro séculos o nascimento de Cristo.

O Malaquias do pesadelo está mais para o da minha infância, pois empenhava-se em desfazer nosso trabalho e, enigmático em nível máximo, transformava um símbolo redondo e verde — semelhante ao vírus do momento —, carimbado nos papéis como atestado de que a tarefa havia sido bem-feita, em prateado. Dentro da realidade onírica, a mudança de cor indicava um passo na direção de uma situação indesejada, limite. Não anunciava a salvação; não há salvação em pesadelos.

Meu amigo não cogitou mandar o pesadelo para um dos grupos de estudo, ele só queria se livrar daquela angústia, em grande parte causada ao me ver pendurado na mais alta gávea da caravela à deriva. De lá eu bradava, talvez em delírio, que comia raios — e, de fato, eu os comia. Minha boca cintilava. O ditado agora é comer raios e arrotar trovões. Por que achei graça na história num primeiro momento? Não sei se passada uma semana ainda posso apaziguar meu amigo, mas gostaria que ele pensasse se alguém sonha em dias noturnos como são os atuais.

Que minha mãe não venha a saber disso de eu comer raios, seria sua segunda morte. Digo isso porque dona Haydée temia a chuva de forma incontrolável e, quando os raios iluminavam o céu e os trovões gritavam, ela cobria a cabeça, se armava de um terço e desfalecia por um tempo.

Penso nela não só pela associação com os raios, mas porque terei de fazer-lhe um pedido: que se encontre com a dona Guida, tomem juntas um chá celestial e em seguida procurem o profeta Malaquias. Perguntem a ele por que demorou quatro séculos entre sua profecia e a vinda de Cristo. Ouçam atentas a autocrítica, aprendam com ela e, então, tratem de descolar com urgência não um Messias — temos um que não honra o nome, melhor deixar essa empreitada de lado —, mas um raio de sabedoria. Não irei comê-lo; do alto da gávea de onde não se tem à vista terra nova ou velha, o pegarei e lançarei sua luz sobre os homens.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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