Quarentona [Tiago Maria]

Posted on 16/04/2020

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Brasil – o que ainda resta dele – quinta-feira, tenho certeza – abril (ou ainda é março?) de 2020.

Acabo de chegar do mercado. Deixo os meus calçados na porta, lavo as mãos, banho, imersão em álcool em gel, troco de roupa, desinfeto as compras, jogo a listinha no lixo, lavo as mãos, guardo as compras e lavo as mãos outra vez. A menor no sofá com o tablet. No quarto, em estudo remoto, a do meio. A maior na maratona da série aquela. Ainda não ouvi o sino da igreja aqui do bairro, mas abro uma pra ficar pensando melhor. Ao “tssii” da tampinha de rosca, trabalhando desde as sete, a quarentona me relampagueia do computador. Aperta os olhos e fuzila: “me serve um gole?”.

Estou de quarentona desde o outubro último. Mais precisamente desde o décimo dia de outubro de dezenove. Cinco meses, se estivermos em março, seis se já é abril. Uma quarentona, pra quem não sabe, tem seguranças absolutas e muitas certezas que antes não tinha. Move-se com elegância. Veste um corpo que lhe cabe sem ajustes. Posiciona-se com lucidez. Cobre-se de zelo e razão a todo o momento. Ao menos aqui em casa está assim. O matriarcado assumiu o controle e acaba de me posicionar que realmente estamos em abril, eu ainda não consertei a gaveta e esqueci as laranjas e o açúcar. “Cadê a listinha, hein?”.

Tá, tudo bem, tem a questão de certo isolamento social, restrições de horários, uma ligeira falta de bar, algumas regras de convivência, a parte da higiene, da organização dos ambientes, as semanas aquelas em que passamos a ser grupo de risco e que é indicado praticarmos a invisibilidade, desdobrar lençóis e boletos, a louça suja, descer o lixo, matar as baratas, estender as roupas, passear com o cachorro, fazer o mercado, esquecer alguma coisa da listinha… Tudo se adquire ao contrair. “Tssii”. “Opa, eu ouvi isso!”, acusa a quarentona da cozinha, já no tempero da ceia.

Viveremos sem dúvidas um longo período de muito aprendizado. Nossos valores serão postos à prova. Precisaremos exercitar nossa empatia nos menores gestos. Ter com quem contar, poder confiar em alguém para dividirmos nossas angústias, nossos recomeços e a sagrada bebida nossa é um privilégio. Uma quarentona assim, gente, bem forte, bem linda, bem tudo, bem no meio dessa minha vidinha pandêmica, fará toda a diferença. “Óh, queres mais um golinho?”. Saúde!

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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