Ligeiras anotações sobre uma quarentena [Daniel Russell Ribas]

Posted on 14/04/2020

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Diário de bordo, ano 20, data epidêmica 1 mês.

Acabo de ver o filme “Como se fosse a primeira vez”, uma comédia romântica bem simpática em que Adam Sandler se apaixona por Drew Barrymore, que não consegue reter as memórias do dia anterior. Com o isolamento social necessário devido a pandemia do Covid-19, acredito que muitos devem ser sentir como a personagem do filme. A diferença é estamos cientes de nossa condição. Todo dia é exatamente o mesmo, canta Nine Inch Nails. O mundo entrou em um espécie de intervalo em que, apesar dos apelos grotescos de alguns que insistem em subestimar a gravidade do momento, precisamos reavaliar nossos conceitos.

Prefiro começar pelas pequenas atitudes. A rotina, por exemplo. Meu pai era um tipo sonhador, com grandes planos, mas que se concentrava tanto no que desejava alcançar que perdia a direção da jornada. Ele pensava no futuro sem se concentrar no presente. A quarentena tem me feito refletir sobre isso. Há muito que desejo transformar em mim. Desde arrumar um emprego, constituir família e ser uma pessoa melhor. A ansiedade ataca quando sinto o peso de todos esses sonhos. Mas volto à rotina por esse motivo. Tudo começa quando acordamos e como lidamos com as tarefas e os obstáculos usuais: lavar louça, limpar a casa. Pode soa bobo, mas considero sério. Porque não se trata de cumprir os deveres, mas também como nos entregamos a isso. É uma obrigação, um aborrecimento ou um fato da vida que permite uma situação mais confortável, que podemos usar como um trampolim para este processo tão complexo e às vezes traiçoeiro que é evoluir como um ser humano?

O isolamento me mostrou muitas coisas. A primeira é que sou dono de casa ruim (e escrevo com um sorriso no rosto). Por mais que cuide, ainda não sei ao certo a maneira apropriada de limpar a casa, o que deixa meu lado perfeccionista tenso. Mas precisa ser feito, e assim procedo. Mantenho a diligência nas tarefas e presto atenção nos acertos e erros. Enquanto isso, assisto a tutoriais e aprendo. Cada resultado de um esforço surge através de repetição e alguma alteração a cada rodada. Deixei de usar o desinfetante antes do lavar com água e sabão em pó. É muito bobo, eu sei, mas sinto prazer em descobrir e consertar cada um de meus errinhos.

A necessidade da empatia é maior agora que estamos afastados. Assim, converso com a namorada e com amigos à distância num modo diferente. Mais do que nunca, demonstrar algum carinho. Mesmo que seja um mero “Como está” no balão de conversa da rede social, pode ser importante. Em meio à incerteza, demonstrar que existe alguém que pergunta por você é um aceno. A casa que faço para minha vida é maior do que onde moro, são as pessoas com interajo. Imagino se a humanidade visse dessa forma tudo seria menos desordenado. Se cada um fizer alguma coisa boa, por menor que seja, sinto como se contribuíssemos para um mundo melhor. Mas devo começar por mim mesmo, vendo cada atividade, por mais banal que seja, como nova e o que posso aprender com ela. Tudo é uma metáfora que dialoga com os enormes castelos de areia que construo no campo dos objetivos.

Em suma, cada gesto conta. Ou talvez esteja mais emocional por conta do filme. Adoro finais felizes.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras e excepcionalmente nesta terça-feira. 

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