As tais fotografias [Cícero Belmar]

Posted on 06/04/2020

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Um amigo recebeu e me repassou, pelo WhatsApp, fotos da Terra feitas a partir de uma estação espacial em órbita ao redor do planeta. É uma sequência com muita qualidade técnica e uma resolução perfeita. Um conjunto de imagens, pelo menos para mim, inédito. Também há um vídeo curtinho gravado pelo astronauta: vemos parte do globo, um globo azulado, as nuvens em movimento, e o silêncio cósmico.

Não se vê o astronauta, mas por uns segundos, aparece a mão dele (com luvas espaciais) encaixando um certo equipamento no outro, utilizando um mosquetão, desses que são usados por escaladores. (Deve estar fazendo um experimento a bordo ou coletando dados, isso não fica claro). Afivela uma peça, libera uma mangueira branca sanfonada e posiciona ainda mais aquilo que parece ser a câmera. Nesse movimento você se dá conta que o vídeo é real e não filme de Hollywood.

As imagens, raridade. O primeiro espanto é ver a Terra pela perspectiva de um ponto que está acima dela, sem ser computação gráfica. Pela abertura da cápsula onde o astronauta está alojado, surge o globo “lá embaixo”. Vê-se que a estação espacial tem uma parafernália de radares, painéis solares, microfones, braços telescópicos. A sequência de fotos, que segue após o vídeo, vem da observação daquele astronauta.

É uma coisa idiota constatar o lógico: para aquele lado onde bate a luz do sol, atribuímos um nome. E outro para a sombra que se apresenta, no lado seguinte do globo. A esse movimento tão óbvio, que alterna a luz e a escuridão misteriosa da vida, é o que chamamos de tempo. A subjetividade absoluta do tempo.

Se é algo emocionante ver essas imagens do nosso Planeta em “tempos” normais, muito mais comoventes elas se tornam nessa época de pandemia (ainda eu as imagens não sejam de um passado próximo). Diante daquele gigante forte e coeso que boia, no universo, descobrimos fatalmente que não é o mundo quem adoece. Nossa humanidade, sim. (Bossais, não estamos prontos sequer para enfrentar doenças).

Estamos sendo monitorados, mas é uma contradição, pois do alto não se sabe o que se passa cá embaixo. Só se vê extensões de terra afastadas por oceanos de cor esmeralda. Definitivamente, o Planeta não precisa de nós para ser bonito. Seres humanos, somos tão pequenos que nem mesmo as potentes câmeras podem nos captar. (Permita-se a este exercício de imaginação: faça de conta que você está ao redor de um buraco, observando, da beira, o que há na profundidade dele. É impossível ver o que as formigas fazem lá embaixo).

Uma das fotos é punk. Capta uma região da Terra no exato momento de uma queimada. Alguém se sentiu no direito de ferir aquela beleza. A maldade de nossos corações é pior do que a pandemia que desconhece fronteiras e nos prende em quarentena. (Por que somos tão fúteis?).

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. Email: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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