A quem interessar patas [Tiago Maria]

Posted on 02/04/2020

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Desprendo aqui este uivar-desabafo, que no mesmo agora, introduzo em uma botija de pensamento, tarraxo a rolha, e lanço no mar alto da navegação cibernética. Quiçá – adoro quiçá! -, quiçá, venha atracar em sua tela, trazido por maré de fibra óptica, para quando enfim sacar-lhe o tampão, ouvires:

– Eu não aguento mais os meus humanos! Pronto, lati.

(Gostou? ando lendo Placão.)

Nos primeiros dias foi até divertido, a casa cheia, a correria das crianças, toda trombada uma cosquinha na barriga, a todo o momento um afago na cabeça, do nada alguém jogava uma bolinha, petiscos fora de hora… Acontece que começaram a usar focinheiras, ninguém mais trabalha e agora as mãos têm o cheiro da tia Gení.

Não seguem uma rotina. Comem de tudo, a todo o momento. É banho que não acaba mais. Andam de pijamas a maior parte do tempo, pescoços curvados, as faces fulgentes com seus inseparáveis filhotes de televisão. Eu já roí a minha coleira, enterrei o controle do ar condicionado no vaso da cozinha, já depenei o travesseiro da cama grande e ninguém me leva pra passear.

Sujam a casa e limpam a casa em simultâneo. E olham atravessado quando me escapa um xixi na sala, me entopem de talco. Não rolo na grama e nem farejo o Max e a Luna faz séculos. Sinto saudades até do saquinho de recolher cocô. De correr atrás de pneu. Debochar de cachorro preso em pátio. Ah, minha vida de pet por um osso de encruzilhada e uma poça de lama.

Reclamam dos meus pelos. Dos meus latidos. Das minhas unhas no piso laminado. Se estiver lambendo as patas ou correndo atrás do meu rabo – nem fuçar um pouquinho no lixo do banheiro me é permitido. Esses dias inventaram de me dar banho de mangueirinha. Imagina se a Luna me fareja usando shampoo de morango?

O gato provoca do telhado. A janela é um quadro de paisagem estática. Acho que era o Max passeando na guia, mas pode ter sido um delírio. Vi um pacote estranho de ração na cozinha. Se mexerem na minha comida eu viro cachorro de rua, tô avisando. Ganhei uma coleira nova que até agora só usei pra tirar foto. Mas não me enganam. Da última vez me convidaram para passear e era vacina.

Portanto, não me resta alternativas, pensando na minha saúde animal e no mês de agosto que se avizinha, coloco-me para adoção. Procuro humanos de estimação, do tipo normais. De preferência sem filhos. Prédio sem escadas é um diferencial. Aceito injeção antipulgas, mas só tomo remédio disfarçado no salame. Porte médio. Pelo curto. Castrada. Pura Lata de pai e mãe. Interessa-te?

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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