Quarentena [Drica Muscat]

Posted on 01/04/2020

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A loucura tem forma?

As crianças não estão mais no pátio, banquinhos na rua estão vazios, a floricultura fechou. O silêncio explode nossa própria companhia, lápis de cor saíram dos armários,

desde quando essa parede não é branca?

A vontade de ser casa e acolher o mundo, podemos abrir as janelas e contar histórias de um lugar justo, onde uns não passam fome e outros não acumulam o mal, onde todos se dão as mãos, porque tudo passou.

O caos tem cor?

A distância jamais uniu tanto, Buda e Jesus nunca estiveram tão próximos, as mãos que lavam lá lavam cá, o choro de lá chora cá, é noite é dia, os ricos são pobres, os pobres são ricos. Na nossa casa somos iguais.

Lá em cima, depois das nuvens e dos reinos prometidos, eles estão protegidos?

Questão de tempo, o tempo não passa, o ar fica, o ar não passa, o tempo corre, e médicos só queriam poder chorar um pouquinho, quando ninguém estivesse olhando, porque a ciência também tem seus limites. No fim, somos todos crianças que queriam correr no pátio vazio.

Foi só um sonho? As mãos, os aplausos, instrumentos, cantoria, foi o som que nos uniu? Se a gente fechar os olhos e eu te chamar pra dançar de brincadeirinha,

você vem?

E nesse vaivém de vida-morte-vida, eu nunca me vi tão humana, tão vulnerável, tão próxima de todo mundo e tão certa, assim como tantos outros, de que as coisas precisam mudar. Mas para o presidente tanto faz.

Hoje é domingo, dez e vinte da manhã, e no céu existe um Sol maior que o medo.

E na minha poesia eu ainda sou casa,

contamos histórias boas

e você fica dentro de

(mim)

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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