Manuel e o Coronavírus [Marcelo Tacuchian]

Posted on 28/03/2020

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Manuel tem tempo. Senta-se na cama para calçar os sapatos. Fica minutos em dúvida se coloca primeiro o pé direito ou o esquerdo. Não precisa ter pressa pois não sairá de casa. Lá fora chove e as ruas estão vazias.

Manuel tem medo também. Tem temor que, depois destas semanas recolhido no seu apartamento, Portugal acorde muito diferente do que era antes destes tempos de isolamento social.

Manuel tem indignação também. Fica perplexo com os que negam a ciência e agem conforme suas opiniões baseadas apenas em crenças sem nenhum contacto com a realidade.

Manuel tem raiva também. Irrita-se pelo mundo estar despreparado e descoordenado para lidar com uma situação como esta.

Manuel tem um aperto no peito também. Sente-se vulnerável como um vírus que classificam como um “bichinho extremamente simples” consegue causar tanto estrago.

Manuel tem dúvidas também. Não tem certeza se a humanidade estará preparada para uma próxima vez ou se a nossa capacidade de não aprender com erros passados vai prevalecer.

Manuel tem tristeza também. Chora pelos que se vão.

Manuel tem algum alívio também. Fica feliz pelos que se curam.

Manuel tem paciência também. Sabe que, nestas situações, esperar é preciso. E não entrar em pânico, uma virtude.

Manuel tem admiração também. Agradece aos profissionais de saúde que estão à altura do país trabalhando, sem descanso, para conseguir dar o melhor atendimento possível para a população.

Manuel tem compaixão também. Liga para os vizinhos idosos e se oferece para fazer suas compras no supermercado.

Manuel tem motivação também. Decide inscrever-se em um curso online para usar de forma positiva o tempo.

Manuel, acima de tudo, tem esperança. Senta-se na cama para calçar os sapatos. Decide começar com o pé direito. Assegura-se que o calçado está bem limpo e engraxado. Traça planos para o futuro e caminha, altivo, em sua direção. Daqui a pouco o sol chega.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

Posted in: Crônicas