Ferradas [Cyro de Mattos]

Posted on 26/03/2020

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Uma das povoações mais antigas da Bahia. Em 1815 recebeu a visita do príncipe alemão Maximiliano Alexandre Felipe. Recebeu também as visitas dos naturalistas Spix e Martius. Teve no início da civilização cacaueira baiana nome aristocrático: Vila de Dom Pedro de Alcântara.

Reconhecida como bairro mãe de Itabuna, sua história está ligada à catequese dos índios, sobressaindo-se a figura do capuchinho Frei Ludovico de Livorno, que era tido pelos desbravadores e conquistadores da terra como alguém que possuía poderes sobrenaturais. Antes de exercer missão evangelizadora entre os índios, Frei Ludovico de Livorno serviu como capelão no exército de Napoleão.

Em Ferradas, na fazenda Auricídia, nasceu Jorge Amado, o escritor mais popular do Brasil, o mais traduzido no mundo. É também berço do poeta Telmo Padilha. Na época do desbravamento, havia em Ferradas um comércio ativo, com armazéns de portas largas e tropas de burro que chegavam carregadas de cacau. A luta pela posse da terra, que acenava com as suas léguas férteis, fez do povoado cenário de crimes praticados por jagunços. Jorge amado mostra no romance “Terras do Sem Fim” essa paisagem violenta de Ferradas, um dos domínios do coronel Horácio.

Naqueles idos, o povoado era uma rua comprida e sem calçamento. Ali tropeiros e viajantes ferravam os animais, burros e mulas, que enfrentavam estadas estreitas e perigosas, veredas pedregosas no verão, lamacentas no inverno. Dirigiam-se em suas marchas incansáveis para a Vila de Vitória da Conquista, no alto sertão. Surgiu depois do povoado o bairro de Ferradinhas. Muito depois. Há pouco menos de trinta anos surgiu outro bairro, o de Nova Ferradas, com casas populares em ruas mal traçadas e sem calçamento.

Anoto em Ferradas a paisagem monótona. Tudo é natural. Mulher janeleira como uva na parreira. Gente velha sentada na cadeira, no passeio da casa. O céu de almofadas. Casas que cochicham e espiam as ruas sonolentas. O silêncio gordo em tudo. A abelha nas flores do jardim pequeno da única praça. O ar verde das árvores nos quintais frutíferos. Passarinhos em alarido bicam a manhã luminosa. Vento morno da manhã aquece os passos do homem barbudo que entra no açougue. Longe das avenidas, ruas que não têm fim, viadutos e túneis, carros velozes que cantam no asfalto, meus passos compartilham com essa proposta de vida em andamento vagaroso.

Acho agradável o menino a brincar com os pombos no passeio da igrejinha. Todos os dias,  vejo o burro que está pastando agora na praça.

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Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras. 

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