A conversa [Marco Antonio]

Posted on 25/03/2020

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A mesa de jantar era uma balbúrdia. Cerca de dez comensais discutiam, enquanto comiam e bebiam. Alguns haviam terminado a refeição, mas permaneciam nas cadeiras, alegres com as conversas em voz alta.

Depois dos muitos cumprimentos, a onça reclamou da fome, era a senha para deixá-la em paz, junto da rã, sua convidada. Sentaram lado a lado, enquanto em uma das cabeceiras criticavam a comida.

— É o médico do reino — explicou a onça.

— Não tem comida em casa? – a rã perguntou.

— Dizem que é tão ruim, que prefere vir comer aqui.

Foram aos pratos. A rã não deixou de notar: a cada três ou quatro garfadas, por comer tão bem, sua nova amiga sorria de parecer que rosnava, com as garras na mesa. O médico prosseguia nas críticas.

— Eu concordo com a onça — anunciou o unicórnio.

— A comida é boa — completou a girafa.

Entrou a esfinge, que depois de rodear a mesa, pulou sobre o móvel onde ficavam as travessas quentes.

— Não é a comida, é o horário — bradou.

Veio o cozinheiro participar, escolhendo uma cadeira afastada.

— Estou ouvindo — avisou.

Médico, unicórnio e esfinge calaram.

— Se não se importam, vou contar da minha viagem — disse a onça.

Todos quiseram ouvir, mesmo a rã, que ainda brincava com a comida na língua.

— Que lugar estranho — continuou, empanzinada.

— Por quê? — perguntou o coro dos presentes.

A fera cofiou seus bigodes felinos e revelou:

— Não gostam de onças.

O médico engasgou, a esfinge fitou o cozinheiro, e o unicórnio aconchegou-se colado ao dorso da girafa. A rã lamentou por um segundo não possuir presas, ou pêlo quentinho. Daí gargalharam.

Inclusive a onça, riu tanto, que do vão entre seus dentes saltou sobre a mesa um caçador, que havia escapado de ser devorado. Caiu de pé, rolou para o chão e fugiu apavorado. Passou pelo centauro, que ao vê-lo em desabalada carreira pela recepção, para fora do hotelzinho, exclamou:

— Selvagens!

Entrou na sala de jantar e pediu um prato.

Nisso o médico esclareceu para a onça:

— É por causa da quarentena.

— Você também acha? — ela perguntou para a rã.

— Claro que é — a rã respondeu.

Onça e demais se entreolharam. Na recepção, fecharam a porta do hotelzinho. A esfinge tossiu brevemente, como quem não quer nada, nem precisou comentar.

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Marco Antonio é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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