A primeira vez [Cássio Zanatta]

Posted on 24/03/2020

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O botão. Cadê o botão que liga?

E assim foi meu primeiro contato com essas esteiras eletrônicas de academia. Sou um caminhante assumido, ando mais de uma hora pelo bairro, pelas praças e parques, mas, com essa epidemia de coronavírus crescendo, evito sair de casa. Para não enlouquecer ficando parado, fiz uma pequena contravenção e atravessei a rua para ir à academia*.

Meio sem jeito, perguntei para a pessoa que estava em outro aparelho como ligava. Ela me mostrou o botão na base da esteira, liguei, bingo. Fez mais: me ajudou a acionar a bichinha, a programar a velocidade, ensinou onde conferir o tempo, a distância percorrida e as calorias consumidas. E lá fui eu.

Direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito, esquerdo. Parece simples, é como se a gente andasse. Claro que não há o vento, o crepitar das coisas pisadas, mas de certa maneira estou familiarizado com o movimento – diferente da minha companheira de academia, às voltas lá com um aparelho mistura de betoneira, tubarão intergaláctico e painel de usina atômica, que eu nem ousaria experimentar.

Cinco minutos. Felizmente não há música ambiente. Um grande motivo para eu nunca frequentar academia são as músicas de academia: uns baticuns feitos para empolgar os pessoas, pobre sequência de acordes com a intenção de hipnotizar todos e transformá-los em fanáticos adoradores de exercícios. Prefiro o silêncio. Na minha cabeça, uma orquestra imaginária toca Tom.

Doze minutos. Minha companheira terminou seu exercício, se despede e vai embora. Estou sozinho na sala. Isso é bom, não ter com que me distrair: sou desses tristes que desviam a atenção facinho e ai de trocar o passo direito pelo esquerdo por um vice-versa que me faria decolar academia afora.

Água. Dizem que é importante uma pausa para a hidratação. Aperto o botão de Pause, desço da esteira e me sirvo de um copo plástico. Por enquanto está moleza. Nesse ritmo, encaro sem sofrimento mais meia hora. Praticamente um maratonista etíope.

Recomeço. Penso na canção de João Bosco e Aldir Blanc, “são dois pra lá, dois pra cá”, mas rapidamente apago, com medo dos meus pés acharem que essa deva ser a sequência, para acabar em tropicão e baubau.

Assobio outro tema. Deve um atleta sério assobiar na academia? Medo de que algum gaiato ouça, pense “esse aí gosta de uma musiquinha” e me venha com o já citado hit de academia.

Trinta e sete minutos. Estou que é só brilho. Pena não haver testemunha do meu desempenho.

Penso na vida. Na loucura em que esse vírus transformou o mundo. Tanta gente infectada, tantos mortos, o buraco na economia, os empregos perdidos… inacreditável. Como sairemos dessa?

Há uma televisão ligada num canto (esqueci de mencionar a TV, sempre ela, onipresente), só vírus, vírus, vírus.

Quarenta e cinco. Penso em outra canção, acho que do Chico, de uma bicicleta reclamando: “muita gente hoje em dia quer me pedalar / mas de um jeito estranho que eu não saio do lugar” e me vejo na mesma situação. Caminho, caminho, e continuo no mesmo canto da academia, sozinho com meu (já pouco) fôlego e pensamentos.

Uma hora. Desligo a esteira. Desço do aparelho, passo um pano embebido em álcool nos locais onde segurei, lavo bem as mãos e o rosto no pequeno banheiro. Antes de sair, dou uma última olhada na TV e seu único assunto. Vou para casa. Chamo o elevador. Me pergunto qual, afinal, a utilidade de exercício numa hora dessa?

Abre a porta, há duas pessoas dentro. Minto que estou esperando alguém, para evitar contatos em locais fechados. Então, a pandemia, que era de desdém, virou um surto de pânico, e agora, de um estranho desalento, uma infinita tristeza pela nossa fragilidade.

Minha primeira vez. Pois é. Quem nasceu pra conversar com pedra nunca vai se dar bem com esteira. Sempre ouvi dizer que o exercício traz uma sensação boa. Era para eu me sentir melhor. Não é o caso.

*Escrita há duas semanas. Desde domingo, 15 de março, não ponho os pés pra fora de casa.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

 

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