Vãos [Drica Muscat]

Posted on 18/03/2020

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Macron, o presidente da França, pediu na quinta-feira (12/03) para a gente reduzir ao máximo a locomoção. Escolas, creches, universidades, museus, restaurantes, cafés e a Torre Eiffel: tudo vai fechar.

Ontem no trabalho tivemos uma reunião com todos os funcionários e, a partir de segunda-feira (16/03), teremos quinze dias, no mínimo, de trabalho à distância.

Hoje é sábado, e já acordei entediada e angustiada. Eu e Pipo – meu gatinho, e muitas vezes meu espelho -, nos entreolhamos assim que eu saí da cama, ambos com cara de quem pede socorro: ficar em casa, colados, sem nada pra fazer, não ia dar.

É que fazer um monte de coisas, mesmo que seja um monte de nadas, ajuda a tapar vãos. Me ajuda a não pensar numa promessa que eu fiz e tenho medo de não conseguir cumprir; me ajuda a não pensar em prazos para entregar trabalhos que nem comecei a escrever; me ajuda a não pensar no que pode acontecer se eu não tiver capacidade de fazer aquilo que eu me comprometi a fazer; ou pensar na distância ou proximidade entre países e línguas e desigualdades; na torneira que precisa ser consertada; numa situação que nem sei se vai existir; ou então pensar que: e se nada, nada, nada, der certo?

Botei a máquina de lavar roupas pra rodar durante um bom tempo, e tirar o atraso de malhas que estavam no fundo do cesto e que eu já estava esquecendo que existiam. Abri um pouco todas as janelas da casa, coisa que, com o tempo frio, fazia dias que não acontecia. Ouvi umas músicas meio estranhas e interessantes. Li o manual da tesoura de cortar unhas de gatos. Lembrei de uma conversa difícil que tive na terça-feira, e senti uma dor necessária. Fiquei quieta pensando e, quando dei por mim, estava admirando o raio de sol que transformou poeira em purpurina. Reparei que as cores da árvore na frente da janela da cozinha mudaram, e lembrei que logo logo é primavera, e que meu aniversário sempre foi na primavera, mas aqui na França cai no outono e, honestamente, não sou fã de outono. Me preocupei com os mais velhos no meio dessa confusão toda, e refleti sobre o fato de não ter nascido para determinadas coisas. Mas sim para outras. Tomei bastante água, e pedi para o Pipo parar de tentar arrancar a fitinha de marcar página pendurada num caderno novo. Fui ao supermercado a pé, e lá encontrei uma criança dentro de um mundo que eu adoraria estar, destruindo tudo o que via pela frente, e rindo leve o riso dos que não devem nada a ninguém e adormecem quando querem.

Lembrei que o Arnaud ia chegar cansado em casa, e comprei queijo para ele ficar feliz, toda vez eu esqueço. Dessa vez lembrei. Voltei, dobrei umas blusas, e fingi que não ia dar tempo de passá-las, como se eu estivesse muito ocupada, então vim para o sofá escrever esta crônica.

Uma crônica que eu não teria escrito se eu não tivesse que ficar em casa, caso não houvesse a pandemia, caso não existisse o ser humano e suas complexidades e falhas e nossa rotina de fazer coisas, que sempre querem, no fundo, tapar esses vãos tão difíceis de enfrentar.

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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