Cassandra [Daniel Russell Ribas]

Posted on 16/03/2020

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Segunda-feira, 16 de fevereiro

Conversei com o paciente da ala 22. Embora mais calmo que ontem, ainda se mostrou agitado e agressivo. Recomendei o aumento de sua dosagem para 2cc.

Ainda não pude descobrir nenhuma informação concreta sobre este homem. Sua muralha delirante está bem erguida e levará algum tempo até conseguirmos derrubar os primeiros tijolos. Ele apresenta, no entanto, certas características não comuns a sua condição. A primeira e mais espantosa é que o paciente está ciente da realidade social. Ele sabe que estamos em 2020, quem é o presidente do Brasil, qual foi a última idiotice do presidente e que a economia vai mal. Apesar disso, persiste em sua teoria de que veio do futuro. O comportamento preenche os demais requisitos de esquizofrenia paranoide: alucinações auditivas e visuais, paranoia e momentos reservados alternados com impulsos violentos.

O paciente, a que me referirei como José, foi admitido recentemente. Os policiais o encontraram andando nu pelas ruas do Centro e gritando absurdos. Estava desorientado e agressivo. Como um profeta trágico, dizia vir de outra época e que era seu dever nos alertar para um apocalipse iminente. Após brigar com os oficiais, foi preso. Devido à ausência de documentos e desavenças severas com outros presos, foi transferido para cá. O médico que o recebeu me informou pela manhã que o paciente ainda estava agitado e agressivo quando chegou, gritando sobre o iminente apocalipse e um desejo insaciável por suco de laranja.

Logo em seguida, almocei na cantina. Fiquei só na salada de novo. Preciso emagrecer. Pensei no que meu colega tinha dito e pedi um suco de laranja. Finalmente, fui vê-lo.

Sua percepção se destacou logo, pois, assim que me apresentei, ele afirmou que eu tinha acabado de beber suco de laranja. Quando perguntei como percebera, dissera que sentia o cheiro de meu hálito. Comecei a questioná-lo quanto sua identidade e origem. O paciente afirmou que, embora não se lembrasse de seu nome, conseguia rememorar quem era. “José” era um gerente de supermercado até o final de 2010. Não pude esconder dele o quão intrigado fiquei. Em geral, portadores deste distúrbio não costumam colocar sua fantasia tão colada à realidade. Ele vivia sozinho e não tinha famí­lia. Em suas palavras, dividia seu tempo livre entre redes sociais e masturbação. Quando perguntado porque havia destacado esta última parte, ele respondeu que realmente não fazia mais nada além disso. “Personalidade isolada, antissocial”, anotei na prancheta.

“José” afirma que se limpava quando leu um anúncio em uma comunidade virtual: “Precisa-se de voluntários para experiência. Preferência por pessoas sem famí­lia. Paga-se bem”. O paciente, então, entrou em contato com o local (cujo endereço ele não recorda). Lá, ele teria sido submetido a uma “cricrixixização”, o que depois compreendi como “criogenização”. Em uma sala vasta, contendo câmaras largas e brilhantes, dois homens lhe teriam explicado que a experiência se desenrolaria num perí­odo de dois anos. A ele teria sido dito que tudo que precisaria fazer era assinar um formulário, entrar em um dos “casulos brancos” e dormir. O pagamento, lhe disseram, seria feito na í­ntegra quando o experimento fosse finalizado.

“José” entrou na câmara. Ele se lembra que estava frio e, então, uma porta de vidro teria fechado, lacrando-no no interior do objeto. O paciente, com medo, começou a bater nas paredes, exigindo para sair pois precisava usar o banheiro uma última vez. De repente, ouvi um som semelhante a um caminhão de lixo parando e uma nuvem branca, cheia de “vidrinhos que grudavam na pele”, o envolveu. Então, ele apagou.

Quando acordou, “José” estava no meio de um deserto. Ele não sabia se era noite ou dia, pois uma gigantesca nuvem preta pairava no céu, como o que parecia ser um enorme redemoinho escuro invertido tapando os céus. O horizonte e a terra estava vermelhos. Havia algumas raí­zes de vegetais azuis no chão e nenhum ser humano à vista. “José”, de repente, teria sido abordado por duas baratas de 2 metros de altura. As baratas tinham listras amarelas e verdes pelo corpo, “como o pessoal sai em atos aos domingos”. Elas também possuí­am apenas quatros braços no total. Ele teria sido levado para um enorme local de ferro no meio da paisagem desértica. Lá, foi amarrado de bruços a uma mesa de cirurgia, “bem fria”, e sodomizado com um bastão fino de ferro. Após a ferramenta ser retirada de seu orifí­cio, sentiu uma sensação relaxante e adormeceu.

Quando acordou, estava no Centro carioca na época atual, nu e desorientado. Após ser agredido por uma senhora, se sentiu tonto e ouviu o barulho de uma interferência de rádio na sua cabeça, som que escutava até hoje quando o vi. “José” afirma que os aliení­genas não tinham abusado sexualmente dele, mas inserido um chip em seu cérebro que apagava suas memórias e serviria de receptor e lhe dados sobre a realidade. Assim, os seres espaciais coletariam informações para uma eventual invasão ao planeta Terra. Teria após receber estes tais dados sobre o que aconteceu no Brasil nos últimos anos que o paciente teria tido o surto que o levou a ser preso.

Sorrindo, percebi que meu horário estava terminando e me despedi. Estava na saí­da quando “José” me disse:

– Doutor Ronaldo, não se preocupa. Daqui a pouco, o mundo acaba. Melhor comer logo essa barra de chocolate enquanto pode. Eu, o máximo que recebi, foi esse chip desgraçado e uma baita hemorroida. Dona Márcia não precisa saber.

Eu não tinha dito meu nome. Nem o da minha mulher. E eu sei que ninguém mais poderia ter feito, pois seria uma infração séria de segurança. Quando saí­ do hospital, olhei para o céu escuro e vi uma luz brilhante. Ela estava parada, mas, de repente, fez um movimento brusco em um L deitado e sumiu no horizonte opaco da noite. Parei em frente a um vendedor na porta da universidade e comprei duas barras de Suflair.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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