Em torno do umbigo [Alexandre Brandão]

Posted on 15/03/2020

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(Imagem: Átila Roque)
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Gostaria de começar esta crônica-espelho com a palavra convulsão, pois me vi num estado convulsivo nos dias próximos ao lançamento no Rio de Janeiro de “Nenhuma poesia: uma antologia” (Editora Patuá), um conjunto de poemas escritos ao longo de quarenta anos. Como quarenta são os anos vividos no Rio, é um livro comemorativo. Sim, uma comemoração minha comigo mesmo. Meu nome é Narciso Alexandre Pessôa Brandão. Ou foi por uns dias. Agora já voltei à realidade estúpida reproduzida pelos espelhos, vitrines, capôs de carros e latas abandonadas nas ruas.

Nos meus dias de beleza revelada pela água, vivi as bobagens mais bobas que a ansiedade nos faz viver. Me vi um adolescente que não sabe muito bem como lidar com os compromissos que, da noite para o dia, mudam de tom. Símbolo dessa mudança era deixar de usar calças curtas. Pois então, nos dias em torno do dia do lançamento, minhas calças compridas estavam sendo confeccionadas pelo alfaiate da delicadeza, da amizade. Eu não sabia e pensava que elas iriam me apertar e me reter no chão. Insônia, dúvidas em cascatas, essas são as companhias da ansiedade adolescente.

Mas também há um nível da ansiedade menos estúpido, aquele no qual um cara com sete livros soltos pelo mundo se vê metido. Será que não fui longe demais, por que não ficar escrevendo meus contos e crônicas, deixando isso de poesia pra lá? Mas por que não, se há material para um livro? Essa briguinha tem, de um lado, a vontade de se dar ao mundo como mais uma voz que lhe quer falar e, de outro, a vaidade, a proteção um tanto quanto covarde do próprio nome.

Publicar o livro foi a vitória de quem quer dialogar. Como digo sempre, escrevo com esse fim. Claro que, ao escrever, busco a forma que me agrade, ou seja, não faço pouco caso das questões estéticas, mas o meu interesse é falar com o hoje.

Amigos que escrevem entendem esse estado convulsivo, um pouco letárgico e muito viçoso. Para quem não escreve, pode soar incompreensível, mas, por favor, faça um esforço, não saia por aí dizendo que o Xandão é cheio de nove horas. Não sou, só tenho um umbigo que, numa hora dessas, fica maior que o mundo.

Chegado o dia do lançamento, raspei o prato do afeto. No quintal da casa que minha filha e outras psicólogas alugam (mulheres, obrigado pelo espaço tão acolhedor), recebi pessoas de vários mundos: da faculdade, do trabalho, da família, do círculo de amigos, da literatura. E foi um encontro, além de lindo, potente. Todos nós sorríamos. Poderia ser simplesmente uma festinha, mas não, ali firmávamos o compromisso calado de manter o sorriso no rosto para enfrentar a monstruosidade que governa nosso país, eco desafinado de uma monstruosidade que se impõe ao mundo.

Na viagem ao umbigo, encontrei forças para sair dele e exigir que a gente lute para retornarmos à convivência social respeitosa — ainda que contraditória, com forças conflituosas puxando a corda cada uma para o seu lado —, que, com a intermediação do Estado, deve buscar o bem comum.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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