Meu amigo português [Marcelo Tacuchian]

Posted on 14/03/2020

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Quando você parte para um novo país, pode não ser tão fácil assim fazer amizades com o pessoal da terra. No caso dos portugueses, apesar do estereótipo dizer que o processo é mais simples, o processo tem seus desafios.

Pelo fato de conhecerem em detalhes a cultura brasileira não existe aquele recurso que é comum usarmos no exterior — Brazil, Pelé, Carnival — Esta maneira tão nossa de nos apresentarmos, em Portugal, não costuma resultar em simpatia instantânea.

No entanto, se você tem o bom senso de usar o telemóvel em vez do celular, vestir a camisola do seu time em vez da camisa e outras coisas similares, as resistências começam a ser quebradas e as ligações acontecem naturalmente. Eu, por exemplo, já tenho um círculo de amizades português que me ajuda muito a formar a minha nova identidade lusitana.

São amigos que encontro no meu bairro, nas caminhadas, nos meus jogos de xadrez e fazem me sentir mais integrado no meu dia a dia. Há também os amigos mais sazonais e, em especial, a um deles que quero dedicar este texto.

Já sei logo que é novembro quando o Zé aparece. Vem me visitar sempre nessa época e nos damos super bem agora. No primeiro ano, sem saber muito bem como lidar com ele tivemos alguns problemas, digamos, culturais. Mas nada que um maior conhecimento mútuo não ajudasse. Afinal, cada um tem a maneira de como gosta de ser tratado e temos de saber apertar o botão certo para a amizade funcionar bem. Tudo é uma questão de regulagem.

Outro ponto que causou algum desconforto, quando ele passou a frequentar a nossa casa, foi o inevitável aumento de despesa. O Zé, como vários portugueses, tem um bom apetite! Mas tudo bem, amigos são assim. Se não soubermos dar algo em troca, não temos como receber. Nas horas mais difíceis, foi ele que, mesmo em completo silêncio, aqueceu minha alma e ajudou a encarar alguns dias e noites mais frias.

A capacidade de espalhar calor humano e me levar de uma situação de desconforto para algo aconchegante é o que eu mais admiro no Zé. Considero que amigos são aqueles que entendem suas necessidades e aí entregam exatamente o que você precisa naquele específico momento, nem mais nem menos.

Escrevo essa crônica já em março, hora de dar adeus ao Zé. Coloco nele uma capa protetora para evitar que acumule poeira durante os próximos meses e o guardo carinhosamente no cantinho da garagem. Até o inverno que vem, meu querido aquecedor elétrico.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

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