O tamanho da crônica [Rubem Penz]

Posted on 13/03/2020

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– Uma lauda – respondeu o professor ao aluno que indagara sobre o tamanho do texto que deveria produzir.

– Não parece muito – ele retrucou, desdenhando a tarefa.

– Pois é. E, ao mesmo tempo, nunca será o suficiente…

X – X – X

Sobre a relação tempo/espaço:

Como tão pouco espaço de texto é capaz de representar tão bem o tempo? E como, com o passar do tempo, passa a ser tão fiel ao espaço?

X – X – X

Todos os dias o cronista firma seu compromisso com o leitor:

– Você tem a minha palavra.

(Uma verdadeira verdade até quando mente.)

X – X – X

Quando já não sabemos se aquela frase é do Drummond, do Maria, Mendes Campos ou Braga, isso deixa de ser uma falha de lembrança para ser um reconhecimento de glória.

X – X – X

Saltam aos olhos as manchetes, as fotos, os infográficos.

A crônica, sorrateira e insidiosa, invade o coração.

X – X – X

Se desdisser minhas palavras amanhã, o texto terá sido agudo, não crônico.

X – X – X

Para alguém que deseja saber se trinta linhas dão conta de contar uma história, defender uma tese ou impressionar alguém, digo que procure olhar os filmes de 30 segundos premiados em Cannes. Quase a mesma coisa.

A comparação só não vale ao tratarmos das cifras envolvidas…

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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