Jantar na mesa [Marco Antonio]

Posted on 11/03/2020

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Terminada a festa, a rã cuidou de encontrar a casa de sua parente. Percebeu que não falava a língua do reino, perguntou a um e outro, mas não se deu bem com o endereço. Resolveu arrumar lugar para passar a noite. Escolheu um hotelzinho acolhedor e alugou um quarto. Desceu para jantar sem apetite, preferindo aguardar na recepção pela fome.

Lia as notícias, quando um unicórnio surgiu sentado ao seu lado. O unicórnio falava muitas línguas, não foi difícil conversarem. Mas logo a largou, para jantar com a girafa. Mais tarde, um centauro desceu dos quartos, trazendo um notável guarda-chuva como bengala. Ao ver que a rã conferia as notícias, quis saber dela quais as mais importantes. A rã apontou para a seção dos esportes, do que ele se convenceu, para então sair pela porta da frente.

De volta ao posto, a recepcionista advertiu que a cozinha encerrava em quinze minutos, e desligou a tevê. Uma esfinge pousada sobre o braço do sofá protestou, dizendo que essa era uma regra caduca.

— Vai jantar ou não? — perguntou a recepcionista.

A esfinge ignorou o aviso.

Notando que o centauro esquecera o guarda-chuva, a rã sugeriu com um salto alcançá-lo na rua, mas a onça entrou no hotelzinho antes. Todos ficaram felizes em vê-la, inclusive a rã.

— Esqueceu o guarda-chuva outra vez — a onça comentou.

— Vou devolver a ele.

— Deixa onde estava, você jantou?

A rã sacudiu a cabeça.

— É minha convidada.

Foram comer.

A onça insistiu que fosse à mesa.

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Marco Antonio é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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