A tarde falhou [Cássio Zanatta]

Posted on 10/03/2020

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Eu esperava tanto da tarde. Minto. Esperava até pouco: um café bebido sem pressa, uma sombra boa, um consolo, risada de criança durante o recreio. Essas coisas bobas, que nos trazem sossego. Mas a tarde falhou.

Tanto que resolvi dizer as horas pelos números menores: nada de quatorze horas, dezessete horas, esses exageros. Chamei de duas horas, cinco horas, mesmo. Não houve merecimento para tanta consideração.

Tentei ler um bom livro, sem concentração. Ouvir música, não me inspirava. Cochilar, o sono não veio. Dei uma volta pelo bairro, um noroeste rodopiou à minha volta, levantou poeira, folhas e me pôs um cisco no olho. E o cúmulo da estranheza: não tive vontade nem de comer banana.

Tampouco o vento quis atiçar as cortinas. Que pobreza.

Mas sou teimoso feito mula velha e insisti na tarde: reli cartas, liguei para fulano, recitei Bandeira nos meus pensamentos. Ao fim de cada tentativa, vinha o silêncio, a luz da vela um segundo antes de apagar, o vácuo em volta, uma solidão estranha – ela, que em geral me é querida, dessa vez me acuou.

Numa última tentativa, corri ao cinema, mas confundi o horário, cheguei 20 minutos depois do filme começar. E pra ser sincero, achei que andar pelo shopping até a próxima sessão, olhar vitrines, sacolas e escadas rolantes, só iria piorar tudo de vez.

Na volta, o jornaleiro não estava, a senhorinha dos três cachorros não passou, o porteiro ria ao interfone, nem o doidinho do bairro deu as caras. Portanto, ninguém me disse boa tarde – também, seria mentira deslavada.

E a tarde se foi como viveu: o sol sumiu atrás de uma nuvem escura, as luzes demoraram a acender, a procissão de automóveis, sinais verdes e vermelhos se alternando, as pessoas com pressa de chegar em casa, suas impaciências e buzinas só piorando o cenário.

Como consolo, breve chegará o outono e seus crepúsculos suaves.

Quem sabe um bom banho me lavasse dessa coisa pegajosa que foi a tarde. Abri a água bem forte e fria. Ensaboei o corpo três vezes. Que a tarde escorresse pelo ralo, deixando a vida reaberta aos acontecimentos.

Vesti uma roupa limpa, voltei à sala e já era noite. Ela chegou com uma doce vingança: recebi a visita de um amigo, outro amigo chegou, bebemos e rimos, comemos queijo, salaminho e ouvimos Tom. Só “Meditação”, umas quatro vezes.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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