Frases a torto e a direito [Raul Drewnick]

Posted on 08/03/2020

2



Era menino e já adepto da sacanagem. Nas aulas de português – que desfaçatez – louvava os vícios de linguagem.

***

Escrever cada vez menos – e pedir perdão, mesmo assim.

***

Que os amigos nos amem pelos nossos olhos verdes e sejam condescendentes com a nossa literatura.

***

Um livro de autoajuda pode auxiliá-lo a ser tornar leve. Mas, se você quiser voar, procure instruções com um passarinho.

***

Se um homem de oitenta anos insiste em falar de seus pecados, é muito mais provável que esteja querendo aplausos do que esperando absolvição.

***

O velhote diz que anda agora com uma garota doce e deliciosa, e seu rosto se ilumina como se fosse todo formado por papilas gustativas.

***

Sou um desses homens cujo maior talento está no exagero com que avaliam suas próprias qualidades.

***

Era bem visível o que o rapaz era, com os dois passarinhos que faziam questão de cantar em torno dele, mas mesmo assim ele me estendeu o cartão: Fulano de Tal, poeta.

***

A literatura pode ser extremamente cansativa. Perguntem aos leitores.

***

Foi um escritor mais perseverante do que os seus leitores.

***

É uma dessas mulheres que, se dizem o nome de um homem, fazem qualquer Zeca da Mata transformar-se em Joseph Charles Dubois.

***

Só escreva bonito se não puder escrever de outro jeito.

***

Adeus para os que me detestem e também para os que me amem: libertas quae sera tamen.

***

Na grande inundação uma rima em inho salvou um passarinho e uma rima em ão afogou um leitão.

***

Numa novela policial é sempre aquele o assunto: quem já é e quem logo vai ser defunto.

***

Numa república ou numa tirania, sempre se dá a João o que se nega a Maria.

***

Pelo que sei, o bobo daquela corte é o rei.

_________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Marcado:
Posted in: Crônicas