Chuva! [Madô Martins]

Posted on 06/03/2020

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Santos já foi ruim assim, na minha infância. Chuvas torrenciais, deslizamentos, soterramentos, tudo igual a hoje. Quando me enviaram mensagem dizendo que o Canal 3 havia transbordado, voltei aos tempos de colégio, mais precisamente, à tarde em que um grupo de alunas não pôde voltar para casa, porque a cidade se tornara um mar sem limites.

Pequenas, estávamos assustadas. As freiras nos permitiram telefonar para os pais, o que ajudou um pouco a acalmar nossos pensamentos, mas era preciso esperar as águas baixarem para que chegassem até nós. Eu ia para as aulas em táxi fretado (ainda não havia peruas escolares), mas nem seu Homero, com toda experiência profissional, conseguia enfrentar o temporal. Seu Hudson verde escuro era muito baixo e teria submergido. Além disso, não era possível distinguir a rua do canal: tudo ficara nivelado pelas águas.

Anoiteceu, nós, as meninas, com fome e frio. As freiras foram jantar e nos deixaram no alpendre da recepção, sem qualquer assistência. De vez em quando, aparecia um pai aflito, à procura da filha. Minha hora de ser resgatada finalmente chegou. O pai veio de carona com o vizinho e voltamos lentamente, porque havia pouca visibilidade e o perigo de mergulharmos no canal cheio.

Até agora, lembro das sensações daquele dia. O rádio nos contava o caos geral: morros estavam desabando, muita gente soterrada e os homens sendo convocados a ajudar a salvar vidas. Lá se foram o pai e o vizinho, pás nas mãos, short e camiseta, oferecer seus préstimos.

Na volta, o pai enlameado não segurou as lágrimas, contando para minha mãe as cenas tristes que presenciara. A tristeza persistiu como a chuva, naquela trágica semana.

Agora, vejo cenas de guerra pela cidade. Carros revirados, desaparecidos, animais deixados para trás, casas destruídas. Estamos abaixo do mar e, quando ele resolve, retoma seus terrenos ocupados. A chuva exagerada igualmente nos assusta, e a junção dessas duas forças traz a consciência de nossa fragilidade diante delas.

Um dia, poderemos desaparecer, como Atlântida. Há previsões de que a orla vai recuar e os bairros serão empurrados para dentro da ilha. Porque somos uma ilha: porção de terra cercada de água por todos os lados, como aprendemos na escola. O degelo dos polos é ameaça palpável e talvez tudo isso já seja o primeiro sintoma da destruição que nos espreita. Deus nos ajude!

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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