Vai, cavalo! [Tiago Maria]

Posted on 05/03/2020

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Eu tinha, até pouco tempo, um pangaré baio, manco da pata traseira esquerda, mal dos cascos, o buçal já meio gasto, a focinheira costurada com arame, mas bom de trote o animal uma barbaridade. Um pouco preguiçoso, não posso negar. Trocava as orelhas desconfiado quando o trajeto era mais longo e  tinha sempre que me cuidar com as cabeçadas. Trabalhou muitos anos em uma madeireira onde não foi bem tratado pelo dono, daí que ficou sestroso e se bobeasse mordia sem dó. Reinava um pouco no inverno, porém nunca me deixou na mão. Os dentes já denunciavam a idade. Uma bicheira que tratei durante anos com uma mistura de violeta genciana, azul de metileno e sal grosso. Gostava de um milho que se lambia. As crinas sempre trançadas, o rabo a espantar mutuca. Só não se incomodava com os bem-te-vis, catando carrapatos sobre o dorso.

Na estrebaria, meu pangaré chamava atenção pelo tamanho, perto dos outros, Puros-Sangues, Quarto de Milha, um Mustang, tem até uma égua Appaloosa na baia em frente à minha, meu pangaré parecia um cachorro vira-latas. A dona das charretes, por exemplo, passava com a mão na boca e quase provocava ao me ver encilhar. Os arreios toscos, o pelego encardido, a maldita bicheira exposta, crivada de varejeiras. O cheiro de cavalo chegava lá na porteira. O matungo odiava banho, tinham que ver, era passar perto de um açude que acelerava a marcha. E o debochado parece que sabia, era avistar de longe a dona das charretes que já erguia a cola e fazia e andava, ali mesmo, sem cerimônia. Fui multado duas vezes por deixar esterco na passagem. Nos dias de desfile, barravam a minha saída com arame farpado.

Acontece que não há mal que perdure e nem pangaré de perna quebrada. Meu baio perdeu o movimento da mão direita e já não conseguia mais nem espantar os parasitas com a cola. Não durou muito. Eu ia assim, desgostoso, a pezito no más, passava pela cancha reta acabrunhado quando me soprou um sussurrelincho nos ouvidos: tordilho, segundo páreo, raia de fora. Apostei o dinheiro do aluguel (não contem à minha senhoura). Peguei a gorda! O prêmio era um Mangalarga marchador, inteiro, alazão de quase dois metros de altura em relação ao solo até o topete. Eu não tinha nem corda pra uma montaria sublime daquelas, nem chincha, nem peitoral à altura. Passei um cheque jesus (breve voltará) e saí de arreios novos, desfilando num trote sereno, rijo o pescoço alto, freio de prata. Surpresa foi a dona das charretes nos recebendo com um punhado de alfafa, virada em dentes. Aquiesceu uma piscadela maliciosa.

Meu bagual agora é o de mais belo porte da estrebaria, tiram fotos, acariciam o pelo, conferem a dentição e aprovam com um aceno de cabeça. Recebi tapinhas nas costas e até ganhei um jogo de cravos e ferraduras novos dos vizinhos. Quando cheguei já havia serragem forrando a baia. Pregado no mourão, um selo de membro honorário da cabanha Golden Horse. Bons dias pra tudo que é lado, convites para rodeios e exposições chegam a todo momento. Um cocho novo com água fresca, feno e milho, três vezes por dia, tudo por conta da cabanha. A dona das charretes já me ofereceu um par de esporas que foi do falecido marido e um relho trançado de rabo de tatu. Já me avisaram que no próximo desfile o meu lugar está garantido na fileira da frente. Ou seja, diga-me o que montas e eu te direi quem és. Vai, Cavalo!

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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