Perdidamente louca [Drica Muscat]

Posted on 04/03/2020

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Era uma vez João que não gostava de Maria, que gostava dele mesmo assim, e ainda mais. Um dia João começou a gostar de Maria, e Maria percebeu que João era gente comum, isso fez Maria olhar para Eduardo, que não gostava nem de Maria, nem de Joana, com quem era casado. Joana era colega de trabalho de Juca, e na sexta-feira, ao saírem da empresa, foram juntos ao aniversário do chefe. Nesse dia, Joana se arrumou como há três anos não se arrumava para sair com o marido, como se tivesse tido um pressentimento. Foi tiro e queda – ao sentar no bar e olhar para a mesa ao lado, viu um homem que parecia ser tudo aquilo que seu marido nunca tinha sido. Maria, enquanto isso, tentava dormir pensando no Eduardo, que frequentava a mesma academia que ela – homem casado, mas que a observava o tempo todo, ela tinha certeza. Eduardo, nesta hora, estava sozinho em casa, e abriu o Facebook para olhar fotos de Carmem, a mulher mais delicada e sensual que já tinha visto, que por sinal, era prima de Joana. Joana queimava de culpa e desejo pelo homem da mesa ao lado que bebia uma cerveja gelada pra tentar esquecer Maria, quando Juca aproveitou a situação e perguntou, como quem não quer nada, se a situação estava melhor em casa com Eduardo. Juca treinou fazer essa pergunta de forma natural durante semanas, nunca suou tanto, as pernas se perdiam embaixo da mesa e as mãos se enroscavam no ar. “Estão mal”, Joana disse, olhando descaradamente para João, que um dia não tinha gostado de Maria, que, por sua vez, casaria-se com Eduardo, que a trairia com Carmem, que depois de tudo o odiaria, mas que começaria a amar Maria e faria as pazes com Joana, que terminaria essa história apaixonada e tão perdidamente louca quanto eu, quando comecei essa confusão de querer entender o amor.

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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