Feliz Quarta-feira de Cinzas [Elyandria Silva]

Posted on 03/03/2020

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Encarar a Quarta-Feira de Cinzas é pior que discutir relação depois de dias, semanas brigado com a pessoa sabendo que tudo pode acontecer nesse tipo de conversa. Aquela ansiedade incômoda, aquela dor de barriga que não quer se assumir e tudo aquilo que sei que você sabe o que é. Se não fosse de Cinzas, ainda assim seria cinza. Se não fosse de Cinzas, ainda assim seria quarta, o dia da semana do meio, com 50 tons para amenizar o cessar dos confetes, com 50 tons para disfarçar o cessar dos tamborins. Nesse dia imagino cinzas espalhadas pelos cantos, pelas casas, imagino cinzas caindo do céu enquanto todos seguem suas vidas tristes, cabisbaixos, arrasados porque as cores do carnaval se foram, as músicas cessaram, as fantasias foram deixadas pelo caminho, como num filme antigo, sem emoção e ação. Acho que já escrevi isso aqui e é possível que todo ano, na crônica de quarta, depois do Carnaval, eu repita minhas agruras como uma tia velha que, esquecida, conta sempre as mesmas histórias.

Uns se vestem de mulher com a desculpa que é Carnaval, uns trabalham amaldiçoando o chefe porque gostariam de estar com um copo de cerveja na mão pulando num trio elétrico na Bahia, outros fuçam no Facebook para descobrir o que os outros estão fazendo e se conformarem ou morrerem de inveja, outros se matam nas estradas para mostrar para a família que aprenderam a dirigir bem na autoescola. Êita povo que não sossega!

Faz dois anos e não me esqueço dele. (É possível que já tenha contado isso aqui também). O dia amanhecia e o sonho da Sapucaí havia terminado. Aguardávamos nossa vez de pegar um táxi numa fila quilométrica, exaustos, sem fala, o som da bateria na cabeça. Do outro lado da rua um rapaz, sentado no meio fio, olhar perdido, cansado, metade da fantasia caída. Lantejoulas, penas, brilho que ofuscava o amanhecer do novo dia, lembrava-me de ter visto o bloco dele passar, azul e branco, Unidos da Tijuca, não tinha certeza. O efeito do sonho havia passado, a dose da alegria havia vencido. O rapaz ali, sozinho e triste, me decepcionou demais porque queria, assim como ele, que os sambas-enredo, os carros, as fantasias, tudo continuasse. Em noites assim, de Carnaval, é fácil acreditar que tudo é para sempre, mas a quarta não nos deixa iludir.

Enfim, não sei do que estou reclamando tanto, afinal é depois do Carnaval que o ano realmente começa. Então, Feliz Ano Novo, de novo, e Feliz Quarta-Feira de Cinzas, pós-festas! Guardemos a fantasia no armário, o confete na gaveta, as marchinhas na cabeça, as fotos no Facebook e que venha a Páscoa!

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Posted in: Crônicas