A comédia da situação [Daniel Russell Ribas]

Posted on 02/03/2020

8



Sem nada para fazer, vi outro dia o filme “Até que a sorte nos separe 3”. Não esperava muito do filme, apenas queria limpar a cabeça das preocupações. Porém, uma pequena cena perto do fim ficou na mente. Um monólogo em que o personagem de Daniel Filho expõe sua raiva ao filho, um empresário, e ao Leandro Hassum, que faz o tipo do pobre malandro otário que o popularizou. E fiquei chocado com o resultado. Sabe, às vezes, a única solução razoável é rir das coisas. Porque há um ridículo inerente em cada ação humana. E, em questões sérias, este fator surge mais proeminente. Não significa retirar a gravidade do ocorrido. Cada medida deve ser equivalente ao peso do que é tratado. Entretanto, em meio ao calor do debate, pode (e com frequência) se perder o foco. Alguns preferem provar que estão certos do que em certificar o alcance do objeto. É neste momento que o ridículo emerge. Torna-se uma comédia de erros, em que os detalhes se tornam elementos mais urgentes do que seu ponto de origem.

Viver em uma era influenciada por mídia digital, acessível e rápida, provê muitos exemplos deste ato. A impressão é que estamos cientes das calamidades, mas não do que elas trazem. Sempre me lembro dos sofistas, cujo propósito residia em fornecer argumentos e estender o debate até sua exaustão. O que observo é menos sofisticado do que isso. É como a imagem dos três macaquinhos, cada um tapando um órgão da cabeça responsável pela compreensão. Assim que um ponto de divergência é apresentado, o outro lado somente fecha um canal de comunicação e se conforma em repetir de modo cada mais agressivo aquilo que defende. Esta dança em círculos é, na teoria, uma situação típica de comédia, em que um personagem age de maneira oposta ao senso comum. Porém, devido a severidade do mundo contemporâneo, encaixa-se no clichê “seria cômico se não fosse trágico”.

Exemplos abundam: há um prefeito que afirma querer cuidar das pessoas, enquanto não provém medidas para precaver a ação das chuvas em sua cidade (e ainda debocha de forma constante do desastre em seguida) ou um governo que defende uma bandeira de empreendedorismo, ao mesmo tempo em que retira direitos trabalhistas, que servem para garantir a estabilidade de funcionários e, numa visão utópica, do próprio serviço.

Quando li uma carta sobre um empresário de uma rede varejista que se deliciava ao relatar sobre uma ida a uma loja nos Estados Unidos, em que uma pessoa era responsável por trabalhos de limpeza, venda e caixa, minha vontade inicial é rir da estupidez da afirmação. Como alguém que é dono de uma franquia espera expandir reduzindo o atendimento ao consumidor ao mínimo? De forma mais direta, como é possível equivaler lucro direto à permanência de um negócio? Não é preciso ser economista para perceber que este funcionário de múltiplas funções pode ser eficaz para uma pessoa, mas nunca para um público. Ou a pessoa vende para vários clientes, sem dedicar atenção à necessidade destes, pois é impossível ter este tipo de foco, ou deixa as pessoas vagarem pelo estabelecimento e somente registra venda, ou a loja ficará imunda. De qualquer forma, ainda mais na competitividade instaurada, a premissa do personagem da carta falha, pois o cliente vai procurar outro lugar. Todo mundo pode fornecer o mesmo produto, então porque ir a este lugar? Preço da mercadoria, talvez? Seria o caso se, número um, não houvesse oferta em outros lugares e, número dois, se optasse por ser esperto no lugar de ganancioso. Molíère exemplificou bem isso em uma comédia.

A comédia provoca reflexão ao jogar luz nas mazelas da sociedade numa forma bombástica. No entanto, para isso, é preciso haver um investimento no drama da narrativa. Investimento esse que parece evaporar numa realidade que pessoas em cargos de responsabilidade insistem em transformar em ficção. Todos querem algo para agora, sem pensar no que virá. É burro. Pois o destino de toda jornada é seu fim. Logo, para onde ir quando se não tem mais terreno para explorar? A sensação de glória em vida por si é falsa, pois ela não necessariamente preserva o legado. Há uma ida para o caos porque as pessoas se recusam ao olhar o passado em sua forma. O cômico vem do efeito imediato e as consequências desastrosas de não se prestar atenção ao óbvio.

Se houver uma espécie alienígena, eles devem se urinar de rir ao nos observar. Mas, para quem está no epicentro da situação, não tem graça. É incrivelmente sério. A comédia humana (brasileira, para ser específica) é trágica. Não é uma gargalhada, é um gargalho. É uma comédia de situação que deveria ter sido cancelada há muito tempo. Em suma, quando você nota que um filme para as massas, feito a toque de caixa, sem qualquer intenção além de ser entretenimento genérico, e o terceiro numa série, possui um argumento político legítimo (se é contestável fica a gosto do freguês), percebe-se o quão estranhas as coisas ficaram. É um mundo muito, muito louco.

_______

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

Posted in: Crônicas