Conjecturas [Alexandre Brandão]

Posted on 01/03/2020

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(Imagem: Átila Roque)
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Claro, não existem bruxas, existem mulheres que passam o pano no terror comandado por esses nostálgicos da Idade Média.

Claro, não existem mulas sem cabeça, existem homens que se sentem abraçados pelos novos bafos do ultrapassado.

Claro, não existem fantasmas, existem crianças que não querem brincar de bangue-bangue, mas, sim, de atirar e matar.

Claro, claro, claro, Juscelino, retórico, publicitário, político, jamais pensou ser possível dar mil passos para trás avançando o tempo em um ano.

Exagero, a besta se construiu ou foi parida aos poucos e ao longo do tempo.

Exagero, a besta não é um acidente, um fato raro, um absurdo, um ator que enganou a todos. A besta sempre esteve aí, no peito, na essência.

A besta dormiu em mim?

Sim.

Em você?

Sim.

Por que você canta e enaltece a besta enquanto eu não?

Porque eu, você diz, fui ignorado pelos não ignorantes. Os dedos me apontaram como o ontem. Mas eu estou aqui com Deus — um que não compreende; com a família — uma que não existe, de tão limpa, suja; com a propriedade — conquistada de berço ou de suor, sim, de suor de pronto esquecido. Quem fui, não sou mais. Como com garfo, atiro com bala; as mãos são sujas, as flechas, imprecisas. Os leões matam. Mato igualmente. Os leões rugem. Eu afirmo com todas as letras: mato porque matar a meu modo, saciado, é a atitude dos que não rugem.

Claro, não existe o inferno, a escuridão é um descuido do sol.

Claro, não existe a dor, o fracasso é uma fruta podre.

Claro, não existe a fome, o paraíso é a etapa superior do sacrifício.

Claro, claro, claro, o sonho civilizatório foi pisoteado pela insônia.

Exagero, ninguém está acordado. Anestesiado é como estamos.

Exagero, brinca-se de pique onde não há esconderijo — na luz do deserto.

Você tem comido o riso e arrotado a loucura enquanto eu queimo os versos que não são mais que cinzas.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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