Fábula portuguesa [Marcelo Tacuchian]

Posted on 29/02/2020

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— Pai, agora que escapamos daquele mamute, conta-me uma história?

— Pode ser fantasia, filho?

— Pode sim. Adoro contos de reinos e povos imaginários.

— Então vamos lá:

Será uma vez um reino localizado na ponta da península mais ocidental do continente europeu. Esta terra atrairá a cobiça do império mais poderoso da época: os Romanos. Mas a coisa não será tão fácil assim, pois encontrarão tribos, a maior delas conhecida como Lusitanos, que ocupam aquela região. Viriato, líder dos locais, não gostará muito daqueles homens vestidos de gladiadores e, por conta disso, será morto. Maneira muito normal de se resolverem as coisas no futuro.

No entanto, como nenhum poder é para sempre, outros povos vindos do Norte, os Suevos, Visigodos e Vândalos invadirão a região e os romanos terão de dar adeus àquele território. Os Vândalos, coitados, que não farão nada diferente do que todo invasor faz, ficarão marcados pelo termo “vandalismo”. Filho, você não sabe o que é isso, mas será uma palavra muito usada daqui para frente.

Quem aparecerá por lá depois desse pessoal? Os Mouros, ou Árabes, serão os grandes senhores do sul da península por vários séculos. Mais para o norte, a filha do rei de Leão que mandará e desmandará no Condado Portucalense se arrependerá de ter parido um filho tão ambicioso. Ele não se contentará em seguir sendo apenas conde e decidirá que quer ser chamado de rei igualzinho aos vizinhos.

E assim, D. Afonso Henriques iniciará a expulsão dos árabes da região e mexerá seus pauzinhos para a Igreja reconhecer seu reinado. Logo será aceito como o primeiro rei do país que será chamado de Portugal. Lógico que isso não agradará nada aos rivais, então aliados, Leão e Castela. Muita confusão e inúmeras guerras entre todos esses reinos virão a acontecer ainda.

Como Portugal continuará sendo ameaçado pelos vizinhos e sua única saída será o mar, iniciará sua expansão marítima. Primeiro África, depois Índia e navegará até terras desconhecidas que apelidarão de Brasil. Serão os pioneiros da globalização. Essa palavra também é meio complicada de explicar para você agora, meu filho, mas depois você vai entender.

Devido a uma crise sucessória, Castela chegará a governar Portugal por longos sessenta anos. Após este período, com reis portugueses novamente, será a vez de as colônias (lembra que falei de África, Índia e Brasil?) ganharem importância no reino. Isso culminará com a mudança da sua capital de Lisboa para o Rio de Janeiro, no Brasil. Um escândalo para a época e que trará muitas consequências para ambos os países.

Depois da independência brasileira, anos se passarão e, em Lisboa, o rei tomará um tiro e aí não terá jeito, a monarquia acabará e virá a república. Como esta mudança não será suficiente para melhorar as condições de vida do povo, estará criado o ambiente ideal para aparecer um salvador da pátria (mais uma coisa muitíssimo comum no futuro, meu filho) que governará o país por mais de quarenta anos.

Em um dia vinte e cinco de abril a ditadura acabará, na que será conhecida como a Revolução dos Cravos. Pouco tempo mais tarde, as antigas e restantes possessões em África conseguirão a independência. Portugal não mais terá colônias.

E a história seguirá, meu filho. Portugal voltará às suas origens. Um pequeno recanto no extremo oeste do continente europeu. A diferença para os tempos das primeiras tribos lusitanas será que o país estará completamente integrado à Europa. Leão e Castela serão a base de um outro país e o território português não mais será ameaçado.

 — Pai, gostei da história deste tal de Portugal que você criou. Acho que vou querer lá viver quando crescer.

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

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