Confetes [Rubem Penz]

Posted on 28/02/2020

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No domingo de Carnaval, muito cedo, ainda antes de amanhecer – ou mal quando a barra do dia apareceu no horizonte –, eu já estava fora da cama. O tempo amenizara-se e não foi o calor a me expulsar do sono. Foi, talvez, a angústia de uma tarefa que se fez urgente, urgentíssima. Ainda assim, tive minutos de contemplação ao sorver os primeiros mates, bem amargos da erva recém cevada. E a madrugada tranquila serviu de trampolim para saltar três décadas e meia para trás, invadido que fora por uma lembrança-confete.

Encontrei no mesmo silêncio, no mesmo frescor da promessa de manhã, na mesma luz incapaz de apagar as lâmpadas nos postes – mas suficientes para ver as andorinhas –, um rapaz muito magro com o olhar perdido. Ele veste calça e tênis brancos, e uma fantasia desgrenhada em tons de verde. Carrega um repinique a tiracolo e suas baquetas estão mal acomodadas nos bolsos de trás. Enquanto caminha, a presilha da alça do instrumento em atrito com o eixo que segura os aros promove um ruído de raspar amplificado pela caixa de ressonância. Um barulho inaudível durante os desfiles. Um barulho-confete.

Já não traz nenhuma moça com a cabeça encostada em seus ombros – ele está a sós. A espaçada cadência dos passos em nada lembra o agito de doze horas antes, aflito para que ninguém estivesse fora de seus lugares e cientes de suas atribuições e com o samba na ponta da língua e um sorriso no rosto. Os pés doem um pouco. Há bolhas nos dedos das mãos – como teria esquecido dos esparadrapos? Tem sede. Tem sono. Não tem ideia de quanto essas sensações perdurariam na memória porque ele, ao contrário de mim, ainda não empilhou três décadas e meia nos ombros. Respira ares de orgulho. Um fiapo de orgulho, um orgulho-confete.

Quando nos cruzamos, ele e eu – que sou ele e ele também me habita –, um desperto para trabalhar e outro cansado em busca do travesseiro, um fazendo balanço e outro projeções, o jovem não é capaz de me ver. Em um átimo, num piscar mais lento, ele talvez me intua. E no sono meio alcoolizado ele desfile pelos tortuosos caminhos que levará um ao mesmo e a outro. Nem pesadelo nem sonho. Para aquilo que será, assim, uma vida-confete.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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