Entre meninos no internato [Cyro de Mattos]

Posted on 27/02/2020

0



A  turma dos menores era a que tinha mais meninos no internato do colégio Irmãos Maristas, em Salvador.  A menor de todas as turmas era a dos maiores. Havia dezenas de meninos na turma dos médios. Em todas as turmas havia meninos e adolescentes  gordos,  magros,  altos,  troncudos,  roliços,  brancos, morenos, mulatos e uns poucos de cor preta. Alguns alunos eram barulhentos, outros recatados.  Poucos alunos internos procediam de cidades do Nordeste,  a maioria vinha dos municípios do interior baiano, dos quais alguns se destacavam em razão do tamanho, população até certo ponto grande e riqueza produzida por uma economia de bases rurais, como Feira de Santana, Vitória da conquista, Ilhéus e Itabuna. Outros meninos procediam de cidades do interior baiano de  porte médio, como Jequié,  Alagoinhas, Juazeiro, Santo Amaro, Santo Antonio, Nazaré das Farinhas, Cachoeira e São Félix. Havia menino nascido  em cidade da qual  nunca se tinha ouvido falar, como Xique-Xique.

Rodolfo, que tinha traços de índio, havia nascido em Xique-Xique. Era o primeiro aluno da classe e o melhor atacante do time. Garoto simples, de origens humildes,  muito comunicativo. Achei graça e fiquei intrigado quando soube que ele tinha nascido em Xique-Xique, cidade de nome esquisito. O que queria dizer Xique-Xique? Havia algo de pejorativo colocado no significado desse nome, que só em pronunciá-lo os garotos ficavam sorrindo? Rodolfo não ligava com as caras de riso que os meninos faziam quando era pronunciado o nome da sua cidade. Ele também ficava sorrindo. Mas era fácil perceber que ele amava a sua cidade natal, dizendo que ela tinha um nome estranho, mas era muito atraente. Ficava em uma das margens do Rio São Francisco. Tinha um povo hospitaleiro, alegre e trabalhador, vivendo da pesca, criatório de gado e artesanato.

Perguntei:

– E por que sua cidade tem esse nome estranho de Xique-Xique?

Rodolfo:

– Os primeiros povoadores que por lá chegaram no começo do Brasil encontraram no lugar um cacto em abundância, conhecido como xique-xique. Essa gente pioneira de tanto se referir ao local onde existia muito dessa planta feito uma palma com espinho terminou fazendo com que o lugar passasse a ser chamado de Xique-Xique.

Perguntei mais:

– Alguém já quis mudar esse nome estranho pra outro que não provoque riso?

Rodolfo:

– Não sei, mas esse nome já está enraizado no coração de cada xiquense-xiquense –  ele mesmo começou a sorrir com a expressão difícil que acabou de pronunciar –, o que sei é que a terra onde nasci é um lugar cheio de belezas naturais, a começar pelo rio São Francisco com suas dunas, um bom local para passeios. Tem um porto onde atracam muitos barcos.

O recreio estava aproximando-se do fim, mas antes que isso acontecesse, Rodolfo ainda teve tempo para dizer que achava muito engraçado o nome Itabuna, “cidade onde você nasceu e mora, não é mesmo?”. Disse que esse nome sempre  lhe soou estranho.

Quis saber:

– O que quer dizer Itabuna?

– A professora de minha cidade disse que é um nome de origem indígena. Ita quer dizer pedra e una, preta. Itabuna quer dizer lugar de pedras pretas. O b entre o ita e o una ocorreu para que o nome Itabuna tivesse uma pronúncia melhor .

– E onde fica esse lugar de pedras pretas?.

– Em vários trechos do Cachoeira, o rio que corta minha cidade em duas bandas.

– É um rio grande?

– Não, mas para nós, filhos de Itabuna, é o maior e o melhor rio do mundo,  chamado pelo povo de pai dos pobres.

–  Sua cidade fica onde? E tem o quê lá, além desse rio? – insistiu.

– Fica no Sul da Bahia, região de muita roça de cacau. Tem o comércio maior e mais movimentado da região. No campo, ela produz muito cacau. Seu povo é  trabalhador e progressista, gosta de abrigar os forasteiros.

Antes de se despedir e se dirigir para o banho no pavimento superior, Rodolfo convidou-me para conhecer Xique-Xique, demonstrando que seria um prazer para ele  se isso acontecesse um dia. Em retribuição disse que ficaria também alegre quando ele quisesse passar uma parte de suas férias comigo em Itabuna.

__________

Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras. 

Posted in: Crônicas