A festa [Marco Antonio]

Posted on 26/02/2020

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Enquanto viajava, a rã apressava os longos saltos querendo chegar a tempo em casa de sua parente. Era uma semana de festa no reino vizinho, sabia disso porque vira os cartazes espalhados, que prometiam muita comida, bebida e música.

Era uma fã de festas. Valia a pena até esquecer um pouco a vontade de sossego que a levara a viajar, seu peito inchava de se imaginar dançando no meio daquele povo.

A noite seguia vencida pelos primeiros raios de sol da manhã. Ainda assim, uma multidão levou a rã consigo, em meio a música e dança. Entretida com a alegria, a rã enveredava pelas ruas, sem se dar conta de hora ou lugar.

Passou o dia nesse prazeroso vai-e-vem.

A certa altura, querendo sombra, bateu à porta de uma casinha, na calçada à esquerda de uma rua movimentada. Uma criança abriu a porta e examinou a rã com curiosidade.

— Bom dia — a rã cumprimentou.

Mas a criança nada disse. Mostrou apenas um pequeno quadro negro, onde escreveu com giz amarelo:

Não falo com estranhos e rãs.

Decidida a aproveitar a chance de uma sombra, a rã pediu emprestada a lousa e o giz. Escreveu:

Não precisa falar comigo, se não quiser.

A criança fez sinal de positivo, mas entrou e fechou a porta. Voltou com um vaso de planta quase do seu próprio tamanho, ajeitou a planta ao lado da janela e escreveu:

Fique à vontade.

A rã saltou sobre a superfície do vaso. A terra úmida e as folhas proviam uma boa defesa contra o calor.

Perfeito, respondeu na lousa.

A criança não tornou a entrar. Largou-se no chão entre a porta, o vaso e a rã. Nas mãos, a lousa e o giz.

Logo passou outra multidão e a rã se despediu para seguir embora.

Da próxima vez, não seremos mais estranhos, escreveu a criança.

A rã concordou e com um longo salto se jogou no meio da galera.

A festa está animada, disse para a mãe a criança, ainda na porta de casa, de repente cantando e dançando igual gente grande.

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Marco Antonio é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

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