Boa companhia [Madô Martins]

Posted on 21/02/2020

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Eu tenho pressa/ e tanta coisa me interessa/ mas nada tanto assim… Tô com sintoma de saudade… O suor escorre… As músicas brotam do rádio como flores e vão me traduzindo, revelando senhas. Acordo com o sol forte, a cama me empurra para fora, passarinhos cantam lá fora, nas gaiolas do vizinho e nas visitas que fazem à minha janela. E como assumi o fogão compulsoriamente, para seguir à risca a dieta que o médico recomendou, ligo o rádio antes mesmo do dejejum (não dá pra falar café da manhã porque o café está proibido). Uso toda imaginação e poesia para elaborar o cardápio. E devo perder algumas gramas, transpirando por todos os poros diante das panelas.

Aboli as luvas de borracha, na hora de lavar a louça. Elas ficam molhadas por dentro, de tanto calor. A água corrente refresca as mãos e, mais uma vez, me deixo levar pela música enquanto, de um lado da pia, a pilha de objetos por lavar diminui e, do outro, cresce a dos limpos. Estabeleço uma certa ordem no escorredor e me dá prazer quando a etapa foi vencida.

Enquanto isso, a comida do dia vira realidade no fogão, logo ao lado. Há alguns meses, pretendendo mudar para um apartamento menor, troquei o de seis bocas por um de quatro. Não mudei, e sinto falta daquele espaço onde pousar as tampas e talheres. Mas o atual é rápido e econômico. O prédio ainda não tem gás de rua e o botijão custa a acabar, para minha sorte.

Faço questão de acomodar o que vou comer em travessas e decorar os pratos. Poetas também se alimentam de beleza. Por isso, todo dia, ponho a mesa para a refeição solitária. Uso jogo americano como toalha. Combino o prato com o copo, não dispenso guardanapo e talheres reluzentes. Como com calma, ouvindo o rádio numa estação tranquila em que a música reina soberana.

Vario entre frutas e gelatina, na sobremesa. Depois, lavo tudo que usei (já enxuguei a louça anterior e o escorredor está vazio), ainda embalada pela música. Deixo a mesa livre para a leitura do jornal. Antes, lavo as mãos e aplico nelas um dos muitos cremes que ganhei durante o ano. O perfume é mais uma carícia nos sentidos. E a música só será silenciada quando terminar de ler as notícias e me aprontar para sair. A rua me chama/ eu tenho que ir pra rua…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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