O dia que Deus falou comigo [Tiago Maria]

Posted on 20/02/2020

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Gostaria, mesmo, caros leitores, de ser pintor, e bom pintor, para colocar sob seus olhos, com fidelidade, o encantamento que aquela aparição causou em todos os Santos do Apolinário…  Mas antes deixa eu contar aqui como Ele me salvou da morte.

Dormíamos, minha senhora e eu, como fazemos há mais de vinte anos, não mais de “conchinha”, clichê de tempos remotos, mas de “ostrinha”, cada um na sua estrutura tridimensional complexa. Ela, enrolada em camadas de lençol e edredom à moda rocambole; eu, esticado feito couro de pandeiro – quando tocou meu celular. E vocês sabem, celular tocando de madrugada é tenso, via de regra é notícia ruim. Se ele estiver na cabeceira da cama, sua senhoura atender e a voz de uma demônia disser: oi, lembra de mim? É morte, certa!

E foi nesse momento, nesse exato momento, com todos os olhos apertados, que eu lembrei de Deus. Uma luz se acendeu em mim, trouxe-me a paz e a serenidade dos justos.

É que no dia que Deus falou comigo, lá no Apolinário, me deu a resposta com sua voz mansa e um sotaque porto-alegrense raiz. Dizem que Ele não é de falar muito, e eu concordo, fica nítido nos programas de entrevista. Agora, não sei se foi o clima, aquele ambiente, o chope, sei lá, sei que tivemos um diálogo, curto, brevíssimo, em verdade, em verdade vos digo, foi uma frase, mas que salvaria a minha vida no momento em que eu mais precisava de misericórdia.

Explico melhor: a Santa Sede, oficina boêmio literária tradicional aqui de Poa, que acontece no boteco Apolinário, publicou uma antologia de crônicas em homenagem aos quarenta anos das personagens “As cobras”, tirinhas Dele, que esteve conosco em carne, osso e alguns raros cabelos, dividindo a mesa e transformando água em chope, ali mesmo, bem diante dos nossos olhos.

Foi mesmo uma aparição, nem os mais santos, nem os mais sedentos, podiam crer. Ele estava mesmo ali, como se fosse um de nós, um mortal. Fez pose para fotografias, autografou obras antigas, apertou mãos, recebeu tapinhas de um lado das costas, deu a outra face e… falou comigo. O boteco estava cheio de falsos profetas e foi um desses ímpios que se aproximou do Homem e disse: Luís Fernando, lembra de mim? Ele apenas sorriu. Foi aí que tomei uns duzentos mililitros de coragem e encaixei uma fala: “Essa pergunta é muito cruel, o melhor é sorrir, não é mesmo? ” E Deus falou comigo: “Quando a gente não sabe de quem se trata é o melhor a ser feito”.

Mas é óbvio que é só quando a gente não sabe quem é. Quando se sabe não há problema algum. Que fala mais idiota essa minha! Santa vergonha! De qualquer forma, me senti ungido. Um idiota, mas um idiota abençoado.

Então, naquela madrugada, quando o meu telefone quebrou a vidraça do sossego e o meu coração já ia descendo as escadarias com uma trouxa de roupas nos ombros, atada na ponta de um cabo de vassoura, e minha senhoura perguntou se era isso, mesmo, só desligar e sorrir, foi que eu tive uma iluminação e recordei daquelas sábias palavras: “Quando a gente não sabe de quem se trata é o melhor a ser feito”. Palavras do Senhor.

E desfizeram-se as trevas. E fez-se a luz!

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 38 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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