Mulheres [Drica Muscat]

Posted on 19/02/2020

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*Alerta de spoiler para a segunda temporada da série Sex Education. 

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Meu nome é Adriana, tenho 31 anos e vivo em Paris há quase três. Não vim pra cá com muito planejamento, o que acabou tornando as coisas um pouco complicadas no início daquilo que eu achei que seria uma viagem de poucos meses. Ao lado de milhões de outras pessoas, eu sofro de ansiedade desde a minha adolescência, e por muito tempo achei que era isso o que me definia, tamanho o sofrimento pelo qual passei em determinados momentos. Acontece que não é. Isso é uma característica minha, sim, que eu trabalho há anos, e da qual eu tento cuidar das formas que me convêm. Mas é algo que vai passar, assim como tudo passa, e até já tem passado, e tudo isso eu aprendi com a Márcia.

Tive alguns relacionamentos na minha vida, e quando eu era um pouco mais jovem, eu não entendia nada sobre feminismo e sobre me amar antes de amar um outro alguém. Isso fez com que eu tenha aberto mão de muitos dos meus desejos, hobbies, amigos, personalidade, para me adaptar às pessoas com quem me relacionei. Hoje eu suspeito que essas pessoas tenham ficado muito satisfeitas e confortáveis com o meu comportamento. Já chorei muito para ex-namorados, pedindo perdão por ser uma pessoa tão complicada e problemática, alimentando o meu ódio por mim mesma, minha baixa autoestima, e muitas vezes desencadeando crises de ansiedade, ao achar que se aquele homem me deixasse, eu não seria ninguém. Hoje eu ando muito mais atenta a mim, ao meu lado bom, e ao que eu quero antes de tudo, e acho que é isso o que faz o meu relacionamento atual funcionar tão bem. Quem me apresentou o feminismo foi a Dedi.

Eu nunca fui boa em exatas, nunca me adaptei muito bem ao sistema escolar, e tirar boas notas era consequência de horas e horas de estudo, tensão e culpa. Eu me comparava constantemente com os meus colegas, e passava muitas noites insones e sofridas, imaginando meu nome estampado na lista dos piores no mural da escola, dos que estariam de recuperação pra sempre, dos que repetiriam de ano eternamente, até não ter mais ano pra repetir. O banheiro do colégio foi, durante muito tempo, minha melhor companhia e o melhor esconderijo do mundo. Era para lá que eu ia quando eu recebia notas ruins, quando eu era xingada, quando eu sofria bullying, ou quando via alguma amiga, que eu julgava ser minha melhor amiga, andando de mãos dadas com a pessoa pela qual eu era apaixonada. Ninguém passa ileso por esses acontecimentos, e às vezes eu escorrego e caio num buraco que me leva para essas cenas difíceis de digerir. Nessa hora, eu duvido da minha capacidade de fazer qualquer coisa, ou de ser quem quer que seja. Quem me lembra que eu sou capaz e talentosa, sim, que vai dar tudo certo, e que o pior que pode acontecer nunca é tão ruim assim, é a Caxu.

Com minha mãe aprendi a importância da literatura, das artes, e de sempre lutar pela minha independência e liberdade. Com minha avó aprendi a ser forte mesmo quando não há mais força. A Mari me ensinou o que é amizade acima de todo o tempo que passar. Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e Djamila Ribeiro me ensinaram a importância de assumir os meus privilégios, e dar voz às que nunca tiveram. Hilda Hilst me conta toda a santa vez que me entende. O meu grupo de amigas brasileiras aqui de Paris me mostrou que se um dia eu me sentir sozinha, eu nunca vou estar sozinha, e que atrás de mim existe um exército de mulheres protetoras, que nunca, nunca, me deixaram na mão, assim como eu estive, e sempre estarei presente para elas. Isso sem contar as outras tantas mulheres da minha vida.

Na semana passada, eu estava assistindo à série Sex Education e me tocou muito profundamente uma cena em particular. Uma das adolescentes da história, em um determinado momento, sofre assédio sexual dentro do ônibus. Este acontecimento não foi visto, a princípio, como algo tão grave pela vítima. Mas, aos poucos, dando-se conta do que realmente havia ocorrido, a adolescente começa a sofrer consequências emocionais fortes, até não conseguir mais subir no ônibus. Um dia, ao passar a pé pelo ponto onde costumava aguardar o transporte público, encontra de surpresa suas amigas que a esperavam para ajudá-la a entrar no ônibus, e a superar o seu trauma juntas. Essa cena ficou guardada em mim durante dias, e ainda está. Ela me despertou para a importância de ter ao meu lado as mulheres que eu tenho, que me fazem sentir tão sortuda e protegida por sermos uma. Por nos compreendermos e, como mulheres, sabermos pelo que aquela outra mulher pode estar passando.

Eu também já sofri assédio na rua e no transporte público, um garoto já puxou meu cabelo numa festa porque eu não quis beijá-lo, eu já estive em relações doloridas, já tive amizades tóxicas e muito medo de me afastar delas por achar que eu ficaria sozinha e sem ninguém pra me apoiar. Já escondi sentimentos para não ser julgada, já tive muito medo de dar minha opinião, de ficar de biquíni na praia, de publicar algum texto e de ser abandonada.

Mas eu estou aqui, e queria te dizer que se você também é mulher e está com medo, está sofrendo, precisa de ajuda ou uma mão para subir no ônibus, eu te ofereço a minha.

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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