Primeiro encontro [Daniel Russell Ribas]

Posted on 17/02/2020

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Encarou o céu e o tempo. Chegou dez minutos adiantado e quase sete anos atrasado. A passagem discreta das nuvens gordas lhe trazia uma serenidade sobre os fatos. À medida que o sol se abria no horizonte do começo de tarde, sentiu que o fim é a única verdade. Porque é preciso que algo acabe para que haja existência. Quando ela chegou, o sol assumiu soberanamente sua posição. Nenhuma nuvem à vista.

Ela se desculpou pelo atraso. Trazia uma sombrinha na mão, que ele notou. Após perceber seu olhar, explicou que achava que fosse chover.

– O tempo parecia que ia fechar, sabe?

Os dois riem de forma desconfortável e relaxam. Trocam olhares, em busca de uma licença para se sentirem bem em suas presenças. Ambos concedem, apesar de resistência individual.

– Sabe, você não parece muito diferente.

– Há, fala sério!

– É verdade. Talvez o cabelo esteja maior…

– Comédia.

Ela o encarou de lado e morde a ponta do dedo mindinho. A menção a este hábito tão antigo quebrou seu receio e deixou as memórias emergirem da pele. O cheiro distinto, a forma como se tocavam, a pressão de lábios no corpo, a dança de línguas… A ponta de sua língua no dedo mindinho. Seu passeio mental foi interrompido no momento em que ela percebe o que ocorre.

– Continua se denunciando.

– Nem tanto.

Pensou que, por estar mais velho, aprendera a ser mais discreto com seus sentimentos. Evitava exposição. Sempre soube que se deixasse outros cientes de seus planos se machucaria. Por ser jovem e impetuoso, era descuidado. Foi assim que se conhecerem. Sentia ter mudado. Todo mundo é alterado pelo clima e as experiências. Dela, só vira as mudanças físicas: cabelo mais longo e liso, sobrancelhas bem-feitas, um ar de sofisticação de alguém que conheceu o mundo e voltou para sua terra. Ele nunca saiu daqui.

Soube de seu retorno através de um amigo em comum. A mãe morrera, precisa tratar do inventário. Os três se conheciam desde o começo. Quantos anos foram? Não importa. Foi longo e rápido como os casos intensos. Ficaram com marcas reais e espirituais durante e logo depois. Narizes e estimas partidos. Um desequilíbrio entre forças. O amigo ficou no meio termo entre o casal, cuidando dos machucados de um e procurando botar bom senso no outro. Para sua partida para Europa, não demorou dois meses.

– Fiquei surpreso que quisesse me ver. Achei que estivesse com a cabeça cheia com as dívidas de sua mãe e… também… nosso fim de namoro não foi nenhum mar de rosas.

– Realmente, tou com bastante para lidar. Mas ainda fico aqui uma semana… Adiantei uma parte, dá tempo… e… não sei; queria saber como estava. – e sorriu.

Uma ponta de satisfação e melancolia o atingiu como a ferroada de um escorpião. Com tudo o que passaram, especialmente de ruim com os problemas e a violência, ainda sobrara algo. Certas coisas não se dissipam no tempo. Permanecem inocentes, envoltas à escama rugosa de feridas da vida.

– Apesar de tudo, sinto como se nada tivesse mudado. Sim, estamos diferentes, talvez de atitude, mas é bom ver o que ficou e o que tem de novo.

– Prefiro como um primeiro encontro. É um momento de não recomeçar, mas de começar como somos agora. Estamos mais velhos. Ganhamos um novo olhar.

A conversa seguiu pela tarde. Era noite quando o ânimo e o balanço do álcool os carregaram até a cama. Transaram como namorados jovens, descobrindo os prazeres e áreas sensíveis do outro como se apenas agora existisse. A energia os guiava, somente. Gozaram forte mais de uma vez. O sexo continuava muito bom. O sol surgia no horizonte quando ela descansou.

Sem sono, aproveitou para andar pelo apartamento. Talvez fosse fazer um café. O mesmo lugar onde se encontravam. A diferença é que não precisavam trepar nas escadas do prédio ou no banheiro de madrugada. Eram adultos e responsáveis por suas escolhas. Abriu a gaveta e encontrou uma pequena caixa. Dentro dela, documentos pessoais e fotos da época em que estas não se perdiam em meio a uma tela. Provavelmente deve ter posto tudo no mesmo lugar para não esquecer, pensou. Admirou por um bom tempo as fotos dos dois jovens. Não acreditou que tivesse guardado tudo aqui. Por um instante, quis recuperar aquilo, mas sabia ser impossível. O tempo não devolve, só tira.

Colocou as fotos carinhosamente em cima da mesa. Pegou as identidades. A recente, feita na Dinamarca, com seu nome de casada: Jaqueline Joren. Embaixo, desbotada, adolescente: Antônio da Silva Ferreira. Comparou as duas fotos. “A idade fez bem para ela.”, pensou. Então caiu a ficha de que a mudança havia sido maior do que estética ou gênero. Jaqueline, de alguma forma, parecia diferente de Antônio, na forma como agia. Havia uma confiança que quase o inibiu ao combinar o encontro quando se falaram ao telefone. Confiança que permaneceu nos gestos, olhares e atitude, inclusive na cama. Deixara de parecer um menino frágil, com medo das mudanças, para se tornar uma mulher do mundo.

Num fundo falso da caixinha, encontrou o dinheiro. Cinco mil dólares, como o amigo em comum informou. Já tinha pegado com o marido o dinheiro para pagar as dívidas da mãe. Deixou o dinheiro no balcão e fez café. Vestiu-se, deixou um bilhete, guardou a grana no bolso da calça e saiu. Olhou para o céu e viu o tempo fechado. Sempre chove pela manhã. Algumas coisas não mudam.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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