O assobio [Alexandre Brandão]

Posted on 16/02/2020

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(Imagem: Átila Roque)
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para Viveca e Boinha

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Aos 18 anos, eu, amigo da noite e de seus maus conselhos, voltava para casa quando os miseravelmente responsáveis (mal sabia que seria um deles em futuro próximo), já acordados, preparavam-se para o trabalho. Foi nessa época que, tendo ficado viúva, tia Yole me escolheu para acompanhá-la nas visitas que fazia à fazenda deixada pelo tio Elin.

Eu me recolhia às três ou quatro da manhã, às seis era despertado, às seis e pouco minha tia e eu entrávamos no carro e fazíamos uma pequena viagem de uns cinquenta quilômetros, de Passos a Cássia. Chegávamos ao Morro Alto, que tinha apenas um curral, nada mais, descíamos e literalmente olhávamos para o pasto e seus boizinhos. Era tudo. “Está tudo bem, não está, querido?” “Sim, tia, está tudo ótimo.” Minha resposta tinha mais a ver com o meu estado deplorável. Apesar de o bate-estaca da boate ainda ecoar pela cabeça e de os infortúnios da ressaca já se prepararem para tomar conta da área, tudo estava bem; ótimo era exagero.

Uma vez, fomos acompanhados por um primo meu (sem parentesco com a tia), veterinário. Ele examinaria o Astuto, touro reprodutor — de má fama, por ter um apetite sexual típico dos pandas — com o qual o tio Elin planejara desenvolver o maior e mais bonito plantel do Sudoeste de Minas, mas que, nas mãos de quem não tinha intimidade com a pecuária, acabou se transformando num estorvo.

Durante a consulta, aproveitando um descuido da tia, meu primo cochichou comigo que não voltaria com ela na direção (ele, de fato, foi o motorista da volta). Puro machismo, claro, tia Yole dirigia bem, aliás dirigiu até às vésperas de morrer, o que foi acontecer quando tinha quase noventa anos (que ela não me ouça falar de sua idade, que, aliás, ganharia mais um ano no próximo 20 de fevereiro), mais de trinta depois da história que conto. O que talvez tenha assustado meu primo é que, alérgica ao sol, ela se protegia segurando uma revista; quer dizer: dirigia com uma só das mãos.

Passada essa época, evoluímos de sobrinho e tia para cúmplices: eu acobertei algumas de suas traquinagens, ela, muitas das minhas. Para reforçar nossos vínculos, houve a escrita. Tia Yole escrevia com sensibilidade, lindamente. Lembro-me da carta que me mandou quando a Helena nasceu. E é inesquecível a crônica que dedicou a meu padrinho, um solteirão, um joão-ninguém, um homem doce, qualidades que “Yoyó, a viúva louca”, como eu carinhosamente a chamava, soube destacar.

Não vou dizer da beleza de minha tia. Não vou dizer de como eram engraçadas suas histórias com o marido, cujo humor era a sua forma de estar na droga deste mundo. Não vou dizer como ela era sofisticada. Vou deixar apenas esse caso miúdo que vivemos juntos. Ah, e acrescentar que tia Yole assobiava. Quem assobia, não sei se vocês sabem, perpetua sua passagem pelo mundo.

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Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “O bichano experimental” (Editora Patuá, 2017), uma seleção de suas crônicas, algumas publicadas aqui na RUBEM, e de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina e na InComunidade (de Portugal). Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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