Minha vida no xadrez [Marcelo Tacuchian]

Posted on 15/02/2020

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Quando o Brasil me deixou, uma parte da minha história foi empacotada e levada para um daqueles depósitos empoeirados onde você larga suas coisas, tranca e guarda a chave para, talvez, algum dia vir a resgatá-las.

Ao chegar em Portugal, não esperava encontrar uso para esse, aparentemente inútil, objeto que trouxe comigo. Apesar disso, no meu novo país, vasculhei áreas escondidas e, para minha surpresa, a chave tropical serviu em uma porta lusitana.

Curioso que sou, fiz a fechadura funcionar e lá no fundo reencontrei algo esquecido: meu prazer em jogar uma boa partida de xadrez.

O interessante é que desde sempre sei mexer as peças e domino as regras, mas não tenho a menor ideia de quem me passou estes conhecimentos. Meus pais e irmão não têm nenhuma afinidade com o jogo e nem tive amigos interessados no tema.

Poderia ter sido meu avô por parte de pai. Proveniente da Armênia, onde este é um dos esportes nacionais e faz parte do currículo de todas as escolas, ele seria uma pessoa a me inspirar. No entanto, como não me lembro do meu avô interagindo comigo sobre isto, fica mais poético afirmar que eu já jogava xadrez mesmo antes de nascer. Coisas de ancestralidade, quem sabe.

O xadrez é um jogo envolto em polêmicas. Não se sabe com certeza onde surgiu e a discussão se é um jogo ou esporte é provavelmente mais antiga que sua própria origem. Muitos acham que é um exercício mental que ajuda em todas as áreas da vida e outros, como o saudoso Millôr Fernandes, dizem, cinicamente, que a única habilidade que um jogador de xadrez desenvolve é a capacidade de jogar bem xadrez.

Como estou com espírito para grandiosidades, eu prefiro ficar com a frase do russo Mikhail Botvinnik que declamou ser o xadrez a beleza humana em forma de arte.

Aproveitando esta onda e para comemorar minha volta aos tabuleiros, penso em criar um curso sobre xadrez e a vida. Um curso só, não. Como estou mesmo para exageros, vou logo produzir quatro cursos para públicos diferentes.

Aos religiosos, mostrarei que o xadrez é um esporte tão perfeito que só pode ser invenção divina (e que os bispos são as peças mais úteis). Aos empresários, direi que conhecer a estratégia do xadrez é garantia de dar xeque-mate na concorrência. Aos trabalhadores, darei esperanças afirmando que no fim de um jogo, independente de quem tenha ganho, rei e peões voltam para a mesma caixa. Finalmente, aos que precisam de consolo por alguma perda recente, farei meu marketing mostrando que o sacrifício de uma peça no momento certo pode ser o segredo para uma vitória no futuro.

Outra vantagem desses meus cursos é que eles podem ser usufruídos indistintamente no Brasil e em Portugal sem qualquer adaptação. Nesta seara, isto poderia ser complicado pois já começa que aqui você não pratica esporte e sim desporto. O futebol, por exemplo, é recheado de palavras diferentes das usadas no Brasil. Golo, guarda-redes, camisola e relvado são apenas alguns dos termos que diferenciam nossa língua. Já no xadrez, não existem diferenças maiores na nomenclatura. Peão é peão, cavalo é cavalo, torre é torre e assim por diante.

Quem não gosta de um esporte simples assim?

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Marcelo Tacuchian é engenheiro naval nascido no Rio de Janeiro. Sempre usou números e planilhas eletrônicas para escrever. Pensava que era a única forma de se exprimir criativamente. Tenta agora fazer uso de palavras e editores de textos. Na sua busca por mudanças, embarcou para Portugal onde vive atualmente e se esforça para aprender a desafiadora língua local.

Participante da Oficina Literária do Marcelo Spalding e Oficina de Crônicas do Rubem Penz. Não tem nenhum material publicado, mas é um orgulhoso vencedor de um concurso promovido pelo extinto Portal Literal e chancelado pelo escritor Rubem Fonseca.   

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