O Bond e o melhor [Rubem Penz]

Posted on 14/02/2020

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Enquanto olhava o trailer do novo filme do Agente 007 – e pode contar como certa a minha presença quando estrear – fiquei com algo na cabeça. Domingo, durante a cerimônia do Oscar, a mesma inquietação havia surgido, mas menos intensa. Uma espécie de iluminação sobre ser e estar.

Criado por Ian Fleming no princípio da década de 1950, James Bond era antes de mais nada um homem elegante. Havia na personagem tudo o que se espera de um agente secreto: inteligente, violento, frio, sagaz, dedicado, incansável. A elegância, porém, serviu de traço distintivo: temperou a violência, a frieza, a sagacidade, a dedicação, a perseverança (nem depois da mais árdua e longa batalha ele se mostrava descomposto). Por qualquer ângulo que se olhe aquele homem a serviço da realeza britânica, seu charme protagoniza.

No prosseguir deste raciocínio, pode colocar na escolha de elenco – casting em bom português – a metade do sucesso da adaptação de suas histórias para o cinema na década seguinte. De cima a baixo, à esquerda e à direita, Sean Connery é elegante. Bom porte sem ser troglodita, voz aveludada em tom grave, gestos firmes e ao mesmo tempo delicados, olhar decidido e uma sobrancelha que sobe na hora certa. Nossa, que homem! Sua permissão para matar se estende a matar de inveja qualquer um. Eu, morro fácil.

Sei que até agora falei quase obviedades, mas a iluminação vem na esteira deste raciocínio. Dei-me conta de que James Bond jamais poderia ser atualizado em termos de postura e vestuário. Não pode usar jeans, camiseta e um All Star no pé, muito menos um moletom com boné de aba quadrada e tatuagens. Abotoaduras, black tie, costume bem cortado e sapatos (de preferência com cadarços) se mantêm como marcas de elegância masculina, refinamento, poder. Se hoje eu vestir um traje da metade do século passado, nem as portas giratórias dos bancos trancarão para os metais que eventualmente estarão comigo.

Mas, nenhum espião pode ser atualizado? Pode, claro. Ethan Hunt vivido por Tom Cruise está aí para mostrar (as Missões Impossíveis originais datam dos anos 1960). Ele muitas vezes vestiu black tie durante as aventuras. Ali, estava um Bond, mas não era. Indubitavelmente, ser Bond é melhor.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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