Uma rã e a onça [Marco Antonio]

Posted on 12/02/2020

2



Era uma vez, uma rã que um dia resolveu visitar sua parente, em um reino próximo. Foi daquele jeito, saltando pelos matos, no meio das árvores, musgos e córregos do caminho.

Nunca se acostumara a viagens e não se lembrava de toda aquela distância até a casa de sua parente vizinha. A floresta era vasta, o cansaço da viagem prejudicava seus saltos ligeiros, por isso resolveu que descansaria sobre o galho de uma árvore. Seria um alívio para suas patinhas e poderia do alto admirar melhor o reino que visitava.

Mas o galho era muito alto, tentou alcançá-lo, mas não conseguiu. Tentou outra vez e nada. Na terceira tentativa, no seu melhor salto, obteve êxito e alcançou a folha mais baixa. Tirou o resto do dia para descansar.

Na manhã seguinte, notou que uma jovem onça rondava as raízes de seu lugar de descanso. A presença dela atrapalhava a viagem, não poderia descer com um bicho tão esperto lá embaixo. Era uma rã educada.

A onça olhava pra cima, parecia interessada no entorno. O tempo passava, a rã não queria se aventurar com o sol forte. Resolveu se anunciar:

— Olá, nobre onça, quem vos fala é esta rã.

— Está aí, nobre rãzinha, não tinha lhe visto.

— Não nos conhecemos, suponho.

— Nunca vi igual em todo este reino.

A onça estava curiosa, e convidou:

— Por que não desce e se apresenta?

— Prefiro descansar um pouco mais.

— Posso subir, se faz questão.

— Desculpe, mas não faço sala, é que sigo viagem.

A onça olhou para a direita, para a esquerda.

— De onde você vem?

— Do reino vizinho.

— Fica muito longe?

— Pra você não é nada.

— Não tenho tanto tempo hoje.

— Por que não tenta, não há onças por lá.

— Acha que vão gostar de mim?

— Não garanto, sei que gostam de rãs.

O felino observou a árvore, onde encontrara uma rã que conversava com onças. Mundo estranho, atrás de si toda aquela mata.

— Quem sabe por lá também gostam de onças — concluiu.

— Não te acompanho porque vou indo visitar uma parente.

A onça prosseguiu sozinha. Logo desapareceu na floresta.

Minutos depois, a rã percebeu a folha larga de outro tronco. Saltou e seguiu viagem.

Agora conhecia uma onça. Melhor não saltar pra trás.

__________

Marco Antonio é carioca, escritor e cronista. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” em ebook, e participou das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III”, “Escritor Profissional – volume 1” e “Clube da Leitura – volume 4”. Escreve crônicas para a RUBEM desde 2014. Em 2018 lançou “O gato na árvore”, pela Editora Moinhos. Suas crônicas saem quinzenalmente às quartas-feiras. 

Marcado:
Posted in: Crônicas