Por causa de você [Madô Martins]

Posted on 07/02/2020

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Chovia demais naquela noite, enquanto arrumava as malas para viagem. Era a primeira vez que ia à França, com direito a uma esticada pela Espanha. O telefone toca, é meu filho, dizendo que ele e a nora vêm me ver. Achei que queriam se despedir, apesar do temporal.

Chegaram com uma pequena caixa embrulhada com capricho. Seria algo que pretendiam que levasse na bagagem, já que a estadia fora seria longa? Custei a entender o significado do presente, quando o abri: dois sapatinhos de tricô. Aí, tudo ficou claro: a urgência da visita, os sorrisos, os olhos brilhantes. Vieram me avisar que, pela primeira vez, eu ia ser avó.

Custei a pegar no sono, as malas prontas e abertas para ser afiveladas pela manhã. Já não sabia se pegava o avião ou ficava. A vida fazia mais uma de suas dobras, e a novidade era grande demais para ser ignorada. Queria contar para o mundo, mas era tarde ou cedo demais, não só pelo horário da revelação. Tarde para desistir do sonho acalentado há quatro décadas, cedo para assumir o novo papel, a ser concretizado meses depois.

Embarquei, agora deixando temporariamente uma família com três pessoas. Na volta, acompanhei nora e filho às consultas médicas, ouvi o coração que batia no ventre da mãe, vi seu vulto de menino no ultrassom, maior a cada mês. Por fim, nesta data, você nasceu, transformando por completo nossos hábitos e costumes.

Todos os calendários da casa trazem, agora, um coração em volta de cada dia 7 do ano, para festejarmos seu mesversário. Mas este é o principal, porque marca o aniversário do menino que agora completa 4 anos. Só sentimos que o tempo passou através das fotos e das roupas, cada vez com tamanho maior.

É para você que escrevo hoje, aniversariante querido. Para você, que me deixa envelhecer com a tranquilidade do dever cumprido, porque tudo valeu a pena. Para você, que é o futuro em carne, osso e graça, prova inconteste de que a vida anda sempre para frente. Para você, que já sabe o que quer e nos aponta caminhos, semente despontando como broto prestes a virar árvore.

E tudo se repete, numa versão moderna. Tudo em você lembra muito seu pai, o meu menino, e às vezes preciso reparar no entorno para saber qual dos dois está nas fotos. Pés e mãos são idênticos, assim como o cabelo escuro. A sutileza também faz parte do pacote. Ambos mostram seu amor em detalhes que aquecem meu coração. Você corre de um lado para outro, mas roça os dedos em mim, a cada passada. Coloca toda a família apertada no mesmo sofá, embora haja dois. E me pega pela mão, quando deseja algo que os pais negariam no momento, lembrando que avós existem para quebrar regras…

Você é agitado por natureza. Então, nas raras ocasiões em que pousa a cabeça no meu colo, sinto-me privilegiada, assim como quando me beija ou abraça espontaneamente. Sempre que nos despedimos, volta a sensação daquela noite chuvosa: quero ir, mas também quero ficar. O álbum de fotografias vai engordando lentamente. É meu jeito de tê-lo por perto.

Hoje vamos comemorar seu nascimento e a vitória de sabê-lo crescido até aqui sem nenhum grande acidente, graças à dedicação de seus pais. Haverá outra festinha na escola, onde adultos não entram. E daqui a pouco estaremos juntos, agradecendo ao universo por ter nos tornado a família que somos, por causa de você.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 15 livros publicados e mais de 900 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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