Fim do mundo [Drica Muscat]

Posted on 05/02/2020

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Quando o mundo estiver acabando, eu vou escrever esta crônica.

Ela vai me levar para a respiração de uma criança, e a sua barriguinha que sobe e desce serena, assim que ela encontra as cores que só existem quando a gente encontra, num sonho, um beija-flor.

A vida vai estar escorrendo pelas ruas, ladeiras, rios e mares, levando com ela toda a gente, sem discriminação. Como onda, ela carrega todo o asfalto, todas as prisões, muros que separam famílias e amantes, e eu vou estar aqui escrevendo, desprevenida, como se amanhã eu fosse acordar a mesma pessoa, descer no mesmo ponto, fritar os mesmos ovos, ouvindo esta mesma música.

O mundo estará caindo, e eu vou pensar nas florzinhas que eu arranquei numa praça para dar de presente pra vovó, e foi quando minha mãe me ensinou que isso não se deve fazer: depois desse dia entendi a importância de uma flor, e por isso o mundo acaba e eu só sinto um perfume bom.

A chuva vai descer com o céu, o chão vai se abrir pra terra respirar, todos os animais vão se ver livres, vai ser dia na Austrália, vai ser noite em algum lugar do mundo, um padeiro estará acordando, um segurança estará indo pra cama, um relógio vai parar, uma enfermeira vai olhar o seu paciente e dizer:

– Eu gosto de você.

O mundo vai gritar, de repente, que assim não pode mais ser, e eu vou pensar nesta crônica. Ela vai me levar pra correr sem nenhum medo, sem parar, em direção a uma estrada azul, a uma dança milenar, ao momento em que Maria volta a acreditar, ou àquela tarde em que um menino até então solitário, incompreendido e desconfortável, pega um lápis e um papel, e descobre que é poeta.

Teremos esquecido todo o resto, aceitado dividir, nos desfeito das mentiras e do sistema que exclui quem pede:

– Uma mão.

Vamos lembrar do que é preciso. Vamos parar pra pensar. Faz tempo – mas disseram que esse sempre há.

Vou reler, ler, escrever, até encontrar o rumo e a rima. Até a raiz.

Até esta hora amanhecer dentro de um verso bom, e o mundo que gira tão calmo, toda a justiça que existe,

as coisas
todas no

      [lugar]

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Drica Muscat tentou de tudo, trabalhou em diferentes áreas, e mesmo quando, de birra, quis rejeitar a escrita, escrever foi a única forma de falar sobre isso. Fundadora do blog dricamuscat.com e vencedora de alguns concursos literários, mora em Paris, onde estuda literatura lusófona na Sorbonne. Gosta de ler mensagens do celular de quem senta ao seu lado no metrô, e tem muita saudade de feijão. É mãe de um gatinho preto, e, segundo uma terapeuta floral, “É doce, mas nem tanto”. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras.

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